Ser mãe neste século e o fim do Puerpério.
Daqui ha algumas semanas e aniversario do meu filho e vai fazer tres anos que me tornei mãe. Não se preocupe não vou enaltecer a profissão.
Ainda ontem lia um artigo numa dessas muitas revistas online onde se falava do periode onde a mãe entra no processo de transição e começa a cuidar de seu bebe integralmente “ Puerpério” , não sabia que essa fase tinha esse nome.
Nem pouco sabia que um dia o aniversário de um outro ser iria ser tão importante para mim e se tornar um marco de batalhas vencidas.
Nesses tres anos a vida passou de frauda em frauda e de noite em noite, começar um outro dia era sempre uma surpresa onde planos mudavam a cada segundo.
Nessa mudança decidi estar com meu filho ate sua idade escolar que aqui são quatro anos, isso quer dizer que não o colocaria numa creche onde passaria o dia todo com uma outra pessoa, queria que pudéssemos estar juntos nesse processo de crescimento e transformação. Voce deve estar pensando que sou rica, mais não. Na verdade optei por uma vida muito mais simples mas muito mais rica emocionalmente, e fico feliz de ter chegado com meu objectivo ate aqui.
Enquanto minha barriga crescia via minha vida antiga se despedindo de mim, minhas noites de festas, trabalho, estudo.
Perdi minha turma, e minha direção. A estudante de escola de arte ja não existia mais, usei minha criatividade para acreditar que isso tudo um dia tomaria um outro rumo.
Me entreguei a isso que chamam de “Puerpério” como uma militância e a unica coisa que queria era sair dele.
Quando meu corpo e alma começaram a despertar e comecei a ver que meu antigo mundo não existia mais, foi um grande momento de solidão onde a maternidade parecia muito dura, mais essa solidão e so um impulso transformador, mais uma vez então comecei a me redescobrir e dessa vez não como mãe, mas sim como a pessoa que fui e que se transformou. Ser mãe não e so assumir um titulo imposto pela biologia, mesmo por que muitas mães abandonam seus filhos onde a biologia não funciona. Nesses tres anos descobri que ser mãe seria me reencontrar novamente dentro desse universo que eu estou começando a conhecer. Quando meu filho nasceu meu eu morreu e deu lugar a esse processo de transformação constante, não que as pessoas que não são mãe ou pai não se transforme mas e que essa transformação e tão repleta de mortes e vidas que não consigo comparar a nada que tenha no meu curriculum como ser humano ate agora. Ainda outro dia minha mãe me dizia que no tempo dela, não havia toda essa frescura não, a mulher paria e pronto. Estive pensando muito nisso e cheguei a uma conclusão, nos tempos da minha mãe, se tornar mãe era tudo que se esperava de uma mulher, ela era a personagem principal nesse processo. Não era um direito ser mãe, mais um dever de cada mulher ,ela nasceu para parir e executar todas as tarefas relacionadas a esse seu destino.
Hoje ser mãe, amamentar, ter parto normal e assim por diante se tornaram palavras e bandeiras de luta feminina, mesmo por que a mulher desse século não e mais a mulher de outros séculos . Não sei se evoluímos ou nos masculinizamos, com o passar de tantos sutiãs queimados, acabamos quase que nos tornando sub-homens. Nossos desejos aumentaram junto com nosso acto social e as vezes são tantos actos e tantos desejos que não sobrou espaço, para exercer esse direito ou dever de ser mãe.
Quando me tornei mãe senti o peso desse conflito e sinto ate hoje, os desejos sociais e econômicos que brigam contra essa energia vinda do interior mais interior, uma energia que faz parte da pre-historia do espirito que te pergunta constantemente “ qual a sua decisão “.
Esses séculos que passaram e a economia bruta que transformou a mulher em alguma coisa ainda não completamente definida não conseguiu fincar suas raízes no útero universal, de uma forma geral continuamos optando por ser mãe.
Claro que as ferramentas maternas mudaram, olhe pra mim sentada aqui as 21.22 horas da noite enquanto meu filho dorme escrevo esse texto onde na verdade e uma reflexão dos meus dias e entro em contacto com mães pelo mundo todo. A economia bruta também nos proporcionou um novo olhar sobre a maternidade, nos enchem de informações, nos conectam com tudo ao nosso redor mas também nos levam a novos conflitos , como dizem,” o que os olhos não veem o coração não sente”.
A mãe de hoje mesmo que tomada por esse amor pré-histórico que rompe com qualquer regra econômica não se torna imune a esse redemoinho/tormenta com excesso de comparações e desejos.
E assim quando nossos homônimos vão tomando seu lugar começamos a nos reinventar novamente e muitas de nos como eu na sua solidão materna sentadas atras de telas diversas tentam reencontrar seus eus/mundos mesmo que de uma forma digital enquanto suas crias e a casa dorme num silencio de fazer gosto.
Ser mãe neste século e exatamente como ser mãe no século de minha mãe a diferença e que levamos todas as cicatrizes da evolução feminina ainda debaixo daquele ultimo sutiã que ainda precisa ser queimado.
VIVA A REVOLUCAO, ABAIXO A MASCULINIZACAO
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