Dois pra la e dois Pra ca
Os personagens noturnos ainda passam pela minha cabeça como se estivessem desfilando na minha frente.
O Cigano com dentes de ouro todo arrumado na goma e cantando todas as mulheres com curvas interessantes.
O Asiático simpático com sua camisa azul e sua calca impecável, os africanos enfeitando o salão com sua beleza sensual e atraindo os olhos azuis das mulheres locais que como deusas de leite se deliciavam ao som dos ritmos cubanos que enchiam aquele local quente com nome de capital, Havana.
Como tudo na Europa do norte as coisas costumam lembrar lugares exóticos e quentes para aquecer o frio constante e amenizar a natureza dura que forca a natureza humana buscar refugio na imaginação.
Depois de 14 anos vivendo na Holanda como um soldado em missão, ontem me dei uma folga tirei minha farda e pela primeira vez em todos esses anos sem nenhuma missão especial com mais quatro mulheres fantásticas fui descobrir o que pessoas fazem quando segunda-feira e feriado e chove la fora com ventos estranhos que nos molham sem nenhum desejo, simplesmente por molhar e ser chuva.
Montadas em nossas bicicletas que mais pareciam unicorneos , saímos pela cidade procurando abrigo da chuva e do vento e alguma coisa para contar no dia seguinte.
A missão de não fazer nada e divertisse e extremamente trabalhosa quando chegamos aos quarenta . Como fazíamos isso todas as semanas e as vezes a semana toda?
O que acontece quando os vinte terminam ?
O homen grande de ébano me dizia, um,dois,tres em todas as lingua e eu a unica coisa que pensava era o que estava fazendo ali.
O Asiático simpático girava ao meu lado com uma mulher linda seus olhos quase cerrados deixavam ver o prazer que sentia em dançar, suas mãos tocavam delicadamente a cintura feminina e a fazia girar com leveza.
Sim, o que eu fazia ali?
Depois da segunda cerveja com nome de diabo, ja não sabia mais e tudo parecia muito mais divertido.
Todas minhas companheiras dançavam, femininas e lisonjeadas com a presença de seus parceiros que se moviam dois pra la e dois pra ca, com uma certa intenção (copular), mas era mais um ritual daquela noite de chuva e vento, onde ações não passariam de intenções.
Suores, cheiros e mais uma cerveja com nome diabo, esse era o limite, aquele mundo alheio atingia ja o limite da estranheza e a beleza dos estranhos comecava a me incomodar.
Uma das companheiras diz “ lhe traga agua” , e assim comecei a voltar a sobriedade, a Havana do norte da Europa com suas luzes foscas que dificultam a visão de quem usa óculos, começou a ficar mais nítida. A agua que levou o efeito da cerveja diabo me devolveu o foco e logo escuto a companheira mais jovem dizendo que era hora de mudar de endereço.
Montadas nas nossas bicicletas unicorneos nos metemos num lugar chamado “ Escondido”, ao contrario de Havana ali não havia nenhum glamour, mais parecido com uma caixa de sapatos, escuro e cheio de fumaça de pipa. Jamais poderia reconhecer alguém no dia seguinte mesmo por que era impossível ver os rostos alheios.
Silhuetas escuras grudadas umas nas outras se movimentavam com passos curtos definidos pela falta de espaço, a musica alta atrapalhava os sentidos, a luz amarela do banheiro ajudava a ver alguém que passasse por ali.
O Escondido foi o ultimo endereço dessa noite tão diferente de todas as outras nesses 14 anos, conheci melhor minhas companheiras, vivi essa aventura anônima de fazer nada e não ter uma missão especial, vi rostos vindo de todos os cantos do mundo, vi mulheres e homens buscando algo que nem se quer um nome tem, vi a mim mesma dançando o dois pra la e dois pra ca, e agora depois de um cafe da manha sem cafe por que não fiz as comprar e escutando AC/DC - Highway to Hell vou transformando essa noite numa historia.
Aqui termino meu texto agradecendo minhas companheiras por me mostrar um pouco do mundo delas , e meninas apreciei a aventura. E agora montada no meu unicórneo vou fazer as compras antes que meu filho chegue. Mesmo por que a vida continua e nessa vida eu sou MAE,MULHER E IMIGRANTE.

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