O cancer e a vida ... Minha vizinha morreu ali na esquina
Os dias passam rápidos, o inverno ainda tímido vem devagar sem muita pressa e nos deixa aproveitar esses momentos milagrosos de sol e alegria.
Minha inquilina chinesa voltou para China e a nova inquilina, ja esta por aqui com quem tenho boas conversas sobre imigração e me conta sobre sua vida na Alemanha como imigrante Paquistanesa. Meu filho vai para escola dentro de cinco meses e ja usa camisas com quadros azuis que lhe caem muito bem com sua cor morena de praia e seus cabelos de menino quase grande.
A vida nesse mes que passou mudou muito, e algumas coisas voltaram ao seu lugar, ou seria melhor dizer,as coisas que tomaram um novo rumo.
Hoje e dia de Sao Cosme e Damião tentei fazer um bolo de chocolate mas como não sei fazer bolo tive que improvisar, meu publico culinário de uma pessoa so adorou assim que foi um sucesso.
Escuto musica classica Mendelssohn Violin Concerto E Minor - Hilary Hahn, muito lindo e me lembro que essa semana ja quase acabou. Vejo meu filho crescendo, os meses voando, minha vizinha morreu de câncer logo ali na minha esquina, e o tempo me da medo com sua falta de piedade, a vida e de uma fragilidade inexplicável , espero não esquecer isso em nenhum momento. Não temos tempo a perder.
Domingo fui me encontrar com amigos que não via fazia meses alguns quase ano, a frieza desse continente tomou conta de muita coisa em mim, ate mesmo de coisas as quais não quero. A musica de domingo derreteu muito gelo dentro de mim e me fez rir e dançar desengonçada tentando encontrar um ritmo dormido que precisa de exercícios.
No domingo antes de ir a musica, botei saia e pintei os lábios, passei meu bom perfume e me olhei no espelho com calma, me vi em outro papel sendo quem eu era e que esses muitos invernos fez dormir.
O homen no trem me olhou e sua mulher também. Sera que foi o baton vermelho da mulher pintada pra guerra?
Não importa?
Vestida com minha armadura antiga, viajei dentro de mim, sentindo coisas que um dia foram banais e que hoje são tesouros emocionais, como flores raras que florescem sem avisar e assusta quem não as conhece.
Isso tudo pode ter dormido dentro de mim por uma questão ou um milhão delas que se resume em sobrevivência, mas a alegria de saber que isso tudo não morreu e que pode ser despertado com a alegria da minha gente, sua musica, seu sorriso, seu calor, sua sensualidade e essa vontade de viver que não ha nevasca que destrua. Essa alegria carrego dentro de mim que vai saindo meio sem graça mas que vai encontrar seu retorno em um lugar, mesmo que seja aqui onde o sol e tão raro.
Ja são quase 22.00 horas meu computador esta lento me avisando que tenho muito trabalho para entregar, a musica de violino se ponha louca e faz meu coração pulsar mais forte, a vela acesa em cima da mesa me da a serenidade necessária para terminar esse texto. Minha mãe me perguntou hoje se estava feliz , acho que lhe dei a entender que não, acho que me enganei, quem sabe enganei a ela, quem sabe a vida me enganou. Sim mãe, eu estou feliz , a vida e seus milagres de transformação me fazem feliz, afinal felicidade e algo feito por nos mesmos a cada momento. Sim mãe, eu estou feliz, mas saiba que vou amar mais, cantar mais, usar mais saias e batons vermelhos como pintada para guerra, vou ler mais, vou viajar mais. Sim mãe, eu estou feliz, minha vizinha morreu ali na minha esquina de câncer e me fez ver mais uma vez o quanto viver e frágil. Antes que me esqueça mãe, Eu te amo muito.

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