O varredor de almas e a mulher com o cigarro no canto da boca,







Era mais um dia naquele redemoinhos de decisoes, sabia que ia pelo caminho certo por mais improvável que fosse todos os sinais.
Pela primeira vez a porta se abriu e me vi vivendo uma outra historia que a jornalista de 24 anos jamais poderia imaginar depois de 17 anos de exílio, naquele continente com ares de dominador.


As casas são mundos que contam a verdadeira historia de um pais, atras desses murros e portas que mais parecem fortalezas de silencio se encontra a verdadeira historia de uma sociedade que se recusa a admitir seus próprios pecados, e sim, eles são punidos pelo tempo e por seus atos mecânicos  sem nenhum fundamento humano.
Não me lembro que dia da semana era, depois de muitas curvas cheguei no endereço  sem muitas expectativas toquei a campainha, dei mais uma olhada para ver se a bicicleta estava fechada e vi que as primeiras gotas de chuva ja molhavam a calcada, a porta se abriu lentamente e aquele bafo de cigarro de pacote me atingiu em cheio ainda na rua.
Uma mulher pequena com os olhos apagados me diz pra entrar, a cada passo que dava para dentro daquela sala de classe media baixa o odor da nicotina me fazia sufocar.
Papeis por todo canto a mesa não tinha nenhum espaço vazio, fotos de crianças brancas com olhos azuis enfeitavam um canto daquele cômodo, o branco das cortinas me chamava a atenção, para uma casa onde se fumava tanto tudo estava muito branco e muito limpo.
A mulher pequena com acento da lingua trabalhadora holandesa  se senta na mesa e em lagrimas me diz que não pode fazer muito naquele dia por que estava muito cansada.
De cabeça baixa entre meias palavras que mais pareciam engasgos de raiva me disse que tinha efisema pulmonar, ainda sem terminar a historia ascendeu um cigarro e se sentou numa cadeira na cozinha onde começou a fumar sem parar.
Reclamou da vida, assumiu uma posição de vitima, deu uma levantada no astral e foi lavar roupa. A desordem da sua casa e sua historia contada em trechos superficiais pelas fotos penduradas aqui e ali  e as louça alemãs com ares de velhos bons tempos dava um nuance naquela introdução de um final de vida.
Depois de algum tempo em silencio a pequena mulher com olhos apagados e um cigarro pendurado entre os dentes postiços no canto da boca , começa a me contar seus dias de glória e muito trabalho, como se trabalhar duro fosse a única coisa que ela tinha para se orgulhar no final de seus dias .
Não me contou de seus amores,  não me contou de seus filhos  ou amigos , e como um disco quebrado me contava e contava de como foi dura a vida e de como conseguiu juntar seus êxitos econômicos mas que agora ali no fim da linha  so tinha seu cigarro por entre os dentes e uma tristeza que enchia todos os cômodos daquela casa de classe media baixa holandesa.
A imagem daquele ser humano naquela cozinha cercada de fumaça e lembranças  de um passado com poucas glorias, me fazia sentir como se tivesse levado um chute no estômago.
Um ate breve terminou nossa conversa, la fora chovia como sempre e grata pela chuva me misturei naquelas lagrimas do ceu me molhei com gosto para me livrar da tristeza alheia.
       

             


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