A Tempestade, a mulher sem braço, Paris
O vento deu uma trégua, escuto o silencio la fora e o dia ja se apagou, enquanto escrevo tento achar debaixo das minhas unhas pedaços de massa de pão, amanha meu filho vai a escola e tenho que pensar no lanche e no cafe da manha.
Em cima da mesa junto com todas as coisas dessa geografia domestica a massa descansa e cresce e o forno na cozinha esquenta e daqui detrás do computador escuto o gas queimando as paredes desse forno com furia.
Quando as nuvens começavam a correr e as vacas se agitavam sabíamos que era hora de entrar ,por os chinelos e cobrir os espelhos. Minha mãe, tinha medo dos raios e dos ventos fortes que poderiam segundo ela levar o teto da casa, nos nunca acreditamos nela.
As tempestades eram momentos de silencio, como se fosse algo que devíamos respeitar oferecendo nossa reverencia, o que para crianças era um grande sacrifício. Anos mais tarde, ja na puberdade consegui escapar do medo materno e tomei meu primeiro banho de chuva sem receio dos raios ou qualquer outra coisa que poderia me acontecer, me senti corajosa e muito feliz.
Era Agosto eu acho, ja faz tempo e minha lembrança quase se transformou numa historia romantica, eram quase seis horas da tarde hora da ave-maria , sul da Espanha Algeciras, meu ticket queimava na minha mão e em uma hora estaria cruzando para Africa, sozinha, ali sentada esperando o navio pensava em como seria a viagem , com algumas moedas chamei minha mãe e lhe disse que estava deixando a Europa para renovar meu visto. Uma tempestade com cara de morte embalou meu caminho ate chegar ao continente que ate então so conhecia pela miséria e a morte que nos apresentava o jornal nacional , remexida pelos ventos e as sensações que a natureza lhe impõe num momento desses, cheguei naquela terra.
Poderia contar muitas historias de tempestades, mas hoje e outro dia que ja quase acabou a luz vai descendo la fora num degrade bonito cheio de paz, e o silencio ao meu redor me faz sentir bem.
Um bom chá me faz companhia e essa musica me ajuda a achar um pouco de sentido dentro de mim, a musica diz num inglês meloso que tudo e novo, acho que e verdade.
Amanha e sexta-feira e tenho que preparar minha mala, vou a Paris, viajarei a noite inteira e chegarei la pela manha as seis horas, passarei o dia escutando o que algumas pessoas tem a dizer a respeito de um jeito muito antigo de ver as coisas.
Acho que vai ser bom.
Dentro de alguns dias sera meu aniversario tinha quase me esquecido e não sei o que fazer, mas sei que vou fazer algo.
Ontem vi um filme francês que falava de Violette Leduc, não a conhecia foi uma linda descoberta.
Tem uma mosca noturna voando e visitando a tela do computador e todas as superficies que suas patas voadoras conseguem alcançar.
Hoje visitei uma mulher sem braço, seu corpo era como uma maquina velha daquelas que parecem que vão ser para sempre, como os carros muito antigos cheios de problemas e continuam rodando so por que alguém os dirige.
Essa mulher sem braço, me fez pensar em mim, vejo meu corpo envelhecendo também, os dias vão passando e as tempestades também.
Não vou me tornar uma maquina velha que roda so por que alguém aperta o botão, essa mulher sem braço me fez pensar em mim, ela era um tipo de um espelho, sua solidão naquela casa cercada de fotos em branco e negro e sacolas de remédios por todos os lados.
“ E, a gente não tem a vida nas mãos”, ela me disse com sua voz entrecortada por um derrame cerebral de faz tres meses. Não tive pena dela, sua dor e seus ruídos de maquina antiga so me faziam pensar mais e mais alto. Hoje visitei uma mulher sem braço e amanha irei a Paris escutar pessoas falarem de como viver melhor nesse mundo onde tudo ou quase tudo e uma maquina velha.
Obrigada mulher sem braço, mesmo que eu saiba que em algum lugar dentro de mim sua solidão me assustou, sei também que voce sendo meu espelho me fez acordar certas coisas.
Hoje visitei uma mulher sem braço e amanha vou a Paris.

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