Conto - A Empregada












 


A empregada


Antes de começar


Quando se nasce mulher numa família dominada pela dor e ideias masculinas sem fundamento, num lugar remoto isolado de toda possibilidade de um mundo moderno, somente um milagre ou uma grande força de vontade, um super poder , poderia vir a mudar o destino de uma menina feia e estranha sem muitos amigos, que sonhava em usar calças jeans e tênis  “all Star’s “. 

Sua historia parecia muito distante, perdida num passado que Ela não fazia questão de lembra-lo talvez por um certo desconforto emocional, ou medo de reconhecer quem ela era, a menina feia sem muitos amigos com ideias estranhas.

Sua solidão infantil foi moldando seu caracter de super heroína, que ela mantinha em segredo sem muito esforço pois ninguém ao seu redor estava interessado em saber quem ela sonhava em ser e tão pouco em quem ela era,  mesmo por que crianças são pessoas em progresso, crescer sendo ignorada por todos fez que por defesa ela viesse a criar seu próprio mundo prematuramente.     

Quando deixou de ser menina não mudou muito, era uma jovem mulher que tinha sonhos não compatíveis com sua realidade, mas como magia ela os alcançava, experimentava e logo deixava ir, não acreditava na eternidade das coisas.

Criou seus Heróis ao longo da vida, fez descobertas que jamais poderia imaginar,  não tinha medo do desconhecido vivia por que sabia que a historia poderia acabar a qualquer momento. 

Tropeçou tanto que seus dedos se acostumaram a dor, aprendeu a não acreditar que as coisas eram impossível  

e assim buscava construir sua historia dia a dia, lagrima a lagrima, vitoria a vitoria.

Havia tempos que tinha muito medo pois se sentia voando em espaços que não eram seus, sentia as mãos do outro tentando domina-la, e como sempre foi estranha e sozinha não sabia pedir socorro , sem saber como acabava escapando e ganhava a liberdade, como folhas secas nos ventos inesperados de Agosto. 

Quando você estiver lendo a historia dela eu não sei onde você vai estar nem os sonhos que tem, não sei quem você e,  mas pode ter certeza, que ela e um pedaço de você, como e um pedaço de mim.  

“ A vida sempre vai lhe trazer mais se você não se acovardar diante da magnitude da sua própria existência”.     



                                                                                                                                                       M.V



                                                      

O começo, ou talvez o fim

 

Era mais uma manha fria no lado norte do mundo, pois assim ela havia dividido o planeta em Norte e Sul em seu mundo interior , seu corpo ainda sentia as dores da semana que passou, o despertador tocava com raiva querendo arranca-la da cama e de seus sonhos que a levava longe daquele pesadelo que sua vida estava se tornando, em meio uma sociedade carregada em estereótipos e extremamente repressora para aqueles que não comungavam de suas ideias e sua biologia, “e eu quero dizer biologia mesmo não ideologia se continuar lendo a historia vai saber por que”.

Falar de todos como um tudo não fazia justiça as poucas boas experiências daqueles anos onde aqui e ali havia tido a graça de encontrar pessoas que não olharam a cor de sua pele, sua origem “sudaca", ou seu acento carregado em estrangeirismo quando falava.

O vento cantava tentando entrar pela janela bem fechada anunciando um dia molhado, frio, com umidade do ar de 95 por cento fazendo tudo parecer mais pesado.

Não havia muitas opções que atender as ordens do tirano que denunciava ja seu atraso e que lhe custaria muito mais esforços  em cima de  sua bicicleta de segunda mão com duas marchas de marca ‘Esparta” , uma marca que combinava muito com sua atual vida, sim uma espartana isso ela havia se tornado .      

Ser “espartana” era sua única maneira de sair adiante e superar aqueles anos de tantas provações físicas e psicológicas, muitas coisas haviam mudado e um desses últimos eventos provocou uma reviravolta em sua vida de mulher nômade  e aventureira, e a transformou no que ela se tornou, um o que, que nem mesma ela sabia o que era.

Com passos lentos ela sobe a escada ja vestida e com melhor humor, a chuva e o vento ainda dominavam os aforas da casa.No quarto vizinho ao seu, com decoração infantil ela entra com cuidado e com uma voz doce e calma que usava exclusivamente para aquele  momento quando ela acordava aquele pequeno corpo, quentinho deitado entregue a cama, com os olhos ainda apertados de sono e os cabelos revirados cheirando a noite, seu filho de quase oito anos senta-se meio dormido, meio acordado e a olha com seus rosto de menino cheio de vida.

Com preguiça e desapontamento ele lhe pergunta se ja era segunda-feira .

Com paciência e ja dobrando os cobertores ela começava a tira-lo da cama explicando a agenda do dia, sempre que saia deixava a casa arrumada e as coisas no lugar ser mãe solo exigia dela uma organização militar para que lhe sobrasse alguma tempo para poder finalizar seus pequenos projectos de ambições modestas.

Enquanto o menino ainda cheio de sono e sem vontade comia seu cafe da manha ela terminava de se arrumar para ganhar a rua, o vento,  a chuva, não usava maquiagem, tão pouco perfume,so dava uma jeito no cabelo para ficar mais pratico e se vestia bem, pois o frio era exigente, logo depois um longo casaco cinza cobriria seu corpo fazendo a desaparecer em meio ao tecido.

Conforto lhe dava uma sensação de fraqueza ela precisava sentir os músculos pedindo por poder fisico ,ela precisava ser desafiada pelo seu meio, conforto era uma recompensa que ela usava de quando em quando para recuperar suas forças .

Sem perceber ela fazia o mesmo com a criança  que sem uma palavra montava em sua bicicleta e lado a lado com sua mãe atravessava a cidade em direção a uma escola alternativa onde era educado a se tornar um cidadão daquele pais, um cidadão com mais liberdade e criatividade em seus pensamentos e vida. 

Tomara, pensava ela!

Puxando - o contra o vento  e o estimulando cada vez que ele superava um obstáculo do transito eles atravessavam aqueles poucos quilômetros e ali ja quase perto de estar atrasado se despediam a sua maneira com “ eu ti amo” e o menino desaparecia na nuvem de crianças que tentavam encontrar seu lugar nas filas antes de entrarem no prédio da escola.

Muitas coisas haviam mudado naqueles dias de “pandemia”, todos mantinham uma certa distancia e os pais não podiam mais levar seus filhos dentro da escola, essa era mais uma barreira que havia sido incluída nesse convívio com os povos do norte que ja era difícil suficiente.   

As mães da escola pareciam seres vindos de outra dimensão ,sempre alegres com suas caras de quem dormiu a noite toda, falavam muito baixo com maneiras extra educadas as vezes passavam do limite se tornando ridículas defendendo suas formas imaculadas.

Imagina ela sem possuir  a mesma cor das outras, que ama falar auto, que gosta de musica,cores, sol e boa comida e que tem moral no mínimo diferente de todos ali, sua posição não era para se imaginar era simplesmente inexistente, e como alguém que luta por existir ela defendia seu lugar e o lugar de seu filho naquele circulo  que desaprovava sua pessoa e seus costumes e que muitas vezes teimavam em a olhar com seus ares de superioridade. 

Quem falaria que naquele pais onde dizem que tudo e possível, um pais sinónimo de liberdade, quem diria que a realidade seria bem outra.

Durante anos ela lutou com seus sentimentos cada vez que era alvo de um racismo antiquado e impiedoso. Não sabia o que odiava mais , se sentir alvo deles ou se sentir vitima deles. Ela achava que pior que racismo era assumir a identidade da injustiçada, num desses programas que ela usava escutar pelas manhas de pessoas que superaram as durezas do existir diziam que “não serei o alvo dos racistas, eu vou ser o pesadelo deles”. A partir do dia que ela entendeu essas palavras ela as adotou para melhorar sua existência e agora ela podia olhar aqueles que a desprezavam por motivos diversos com o mesmo olhar, ela era o espelho deles.     

Viver em outro continente era para ela como uma saga, ela filha de um agricultor do sul de um pais do sul do mundo, crescida numa família onde não era um terreno fértil para seus sonhos, ai junto com essas pessoas que não a entediam começou a construir seu plano de vida.

Seu pai foi analfabeto ate os cinquenta anos de idade quando decidiu que aprender a ler lhe serviria de alguma coisa agora que a família vivia na cidade,  a mãe nunca consegui sair das barras do fogão, e passou uma vida frustrada culpando a todos por sua falta de vitorias, sonhar era um acto de rebeldia, diante das mínimas  possibilidades que sua existência desde os primeiros dias de sua vida lhe oferecia.

Estar na Europa vivendo num pais de “primeiro mundo”, não poderia ser em vão ela tinha que fazer o seu melhor diante daquela chance, mesmo por que ela sabia o que era não ter expectativas de progresso.

Começar a semana era sempre se preparar para o campo de batalha, logo depois que ela deixava seu filho na escola seguia para seu trabalho que lhe custaria duas horas de esforço fisico e sociabilidade.

Todas as manhas ela trabalhava com pessoas idosas e incapacitadas de cuidar de suas casas ela ia ate essas famílias em fase terminal para poder limpar  e lhes dar os cuidados domésticos básicos.

Limpar aquelas casas duas horas por dia lhe garantia financeiramente e lhe dava o espaço de ver seu filho crescer e estar presente nos momentos em que ele mais precisava, vê-lo crescer era mais que uma necessidade era uma missão no seu coração de mãe.

Vir para Europa foi um ato desesperado para salvar a própria vida, ela não poderia ter tido uma outra opção que imigrar, esse movimento geográfico estava em seu sangue que era uma mistura genética que juntava muitos cantos do planeta naquele corpo de mulher.

Ela não era o tipo atraente  ja tinha uma certa idade e os homens ja não viam nela possibilidades de usa-la como campo para seus jogos emocionais, sua paciência com o sexo oposto era inexistente, seus interesses iam alem de sonhar com a relação perfeita ou conforto financeiro oferecido por um homen em troca de fidelidade eterna e trabalhos domésticos não remunerados.

Mas naqueles dias ela  ganhava a vida limpando, aspirando, tirando o po alheio de casas que mais pareciam um pre-túmulo, aquelas pessoas esperavam a hora da morte, sentadas em seus sofás confortáveis com seus aquecedores ligados ha 25 graus, enquanto o dela não saia dos 19.


Ela


Antes de voltarmos a limpeza vamos falar dela, essa mulher, se você a olhasse mesmo por que ela não tentava impressionar ninguém pela sua aparência física, e como havia aprendido na infância não achava a atenção de ninguém , suas curvas ja não encantavam pela sua idade, ela estava fora de qualquer competição no mercado feminino em geral.

Não que isso lhe importasse, na verdade ela achava o mundo homen x mulher extremamente desinteressante como se fosse uma repetição constante das mesmas falas e posições físicas, não que ela não tenha tentado fazer parte dessa repetição , mas falhou, constantemente.  

Sem perceber se surpreendia sonhando em ter vontades ou objectivos parecidos como as outras mulheres que a cercavam, ir ao cabeleireiro , casar-se, estar sempre querendo possuir os corpos perfeitos que as revistas e a televisão exibia, amor, e roupas  e muitas outras superficialidades que faziam aquelas do sexo feminino ao seu redor.

Mas eram so sonhos, ela havia tentado ser como as outras, fazer a família padrão, ser aquela que se oferece a ser imolada para que todos ao seu redor possam se salvar, mas sua tentativa de Cristo mulher durou pouco e logo se viu seguindo so e para surpresa alheia, muito feliz. 

Mais se parecia com uma montanha perdida no meio daquela cidade simpática com ares de aristocracia decadente, com seus cabelos longos ja com alguns fios brancos que lhe davam algum charme, seus traços orientais, suas tatuagens que as exibia sem pudor e sua tendência a se vestir com roupas retro que as encontrava nas lojas de segunda mão . 

Suas ideias eram assustadoras por que não media o impacto dos seus pensamentos, ela achava que todos podiam entender as suas complicações existenciais, quando falava com seu filho fazia questão de ser clara mesmo que respeitando suas limitações infantis, se ele perguntasse ela lhe respondia, ser honesta dentro de seus conhecimentos era uma regra que ela levava ao pe da letra.

Muitas outras mulheres se aproximavam dela com uma certa curiosidade e as vezes eram contaminadas pela liberdade que elas viam nela e sem perceber acabavam lhe contando suas vidas e suas frustrações e deslizes do mundo feminino com marido.

Ela como sempre foi uma pessoa curiosa escutava tudo atentamente ate quando essas tais mulheres desapareciam e começavam a ignorar em publico com medo que ela viesse a revelar as confissões ouvidas.

Situações como essas a enchia de tristeza pois pensava que havia encontrado amizade naqueles dias em que recebia essas visitas inesperadas de donas de casa cheias de medo de si mesmas por terem descoberto que eram capazes de ser mais que servas de seus maridos.

Então com o passar do tempo ela descobriu que as outras mulheres como ela estavam tentando fazer parte de um outro mundo um mundo onde  ela vivia sozinha, por escolha própria , um mundo cheio de dificuldades por ter escolhido ir contra as regras.  

Jogos emocionais ou de sedução nunca foram parte de suas historias não sabia como as pessoas gostavam de viver daquela forma, viver, ser mulher ja era suficiente para ela.

A verdade e que também muitas vezes se sentia extremamente  incomodada com suas inadequações, não ser o normal era cansativo. 

Os dias para ela passavam muito rápido ela sempre ia exausta para cama, mas com a vontade de continuar acordada pois acreditava que ainda existiam coisas para serem experimentadas, novos pensamentos a serem descobertos e sem perceber dormia. Seu cansaço era maior que sua urgência de viver, seu corpo não suportava a demanda de seu dia a dia. 

Tinha sonhos para si mesma, sonhos esses que não se atrevia a sonhar com medo de perder as pernas que a mantinham logo ali no chão, queria ser livre de tudo que lhe disseram desde o dia em que nasceu e também ser livre de seus próprios pensamentos que foram se moldando por sua falta de adaptação as estruturas grupais .

Por isso ela decidiu enfrentar seus medos que eram muitos, ela tinha medo de perder seu filho pois seu ex companheiro era um “local” que desfrutava de toda conveniência geografia que lhe foi oferecida por ter nascido naquela parte do mundo. Tinha medo de morrer fazendo o que ela não gostava, morrer ainda viva tentando sobreviver, sua cor e seu acento quando falava não eram propriamente o  que lhe abriria as portas da abundância mas ela acreditava que dentro dela havia um certo super poder que a faria vencer tudo aquilo, ela se atrevia a acreditar no inacreditável.



A primeira casa -  Segunda-feira  -  Nove horas .     


Com seu filho ja na escola ela estava pronta para começar sua semana, em cima da bicicleta sentia o frio passando pelas muitas camadas de tecido indo direto para os músculos rígidos das coxas firmes que tinha devido o uso intenso das duas rodas. Com seus pés molhados e gelada ela chega no seu primeiro endereço, havia aprendido a ver aquelas horas de trabalho como uma viagem a outra dimensão, era como sair de seu corpo enquanto suas mãos faziam tarefas diversas.Ela sempre chegava na hora e nunca se vestia mal para estar ali, acreditava que quando se muda a forma de ver as coisas as coisas mudam também,seus clientes sempre se surpreendiam em vê-la elegante e sem nenhum ar serviçal, com confiança ela andava pela casa como se fosse sua. 

Ja na porta debaixo de chuva,depois de esperar por algum tempo,dois olhos apagados se mostram pelo espaço aberto, com determinação ela diz bom dia, quase que num ato de invasão e  limpando os sapatos molhados da chuva no tapete da entrada, pendura seu casaco pesado deixando sua bolsa e outras coisas desnecessárias  para trás e começa sua jornada.

O cheiro das fraudas geriátricas faziam seu estômago revirar e sem se dar tempo de se sentir mal ia abrindo as janelas e deixando algum ar limpo entrar, tinha que ser discreta pois seus clientes se incomodavam muito com sua mania de ar fresco reclamando do frio ou da corrente de ar que entrava porta a dentro quando ela chegava. Seus narizes quase centenários ja estavam acostumados com seus cheiros e viviam em paz com seus excrementos corporais, mas Ela não, aquele cheiro era a prova do fim dos dias que estavam bem perto daqueles corpos que decoravam aquelas salas cheias de retratados de mortos que ainda faziam parte das historias que ela tinha que ouvir na hora do cafe com bolacha.

Por aqueles cantos do mundo e um costume se tomar o cafe ou o chá com bolachas, as bolachas são guardadas dentro de uma lata que na maioria das vezes e muito difícil de abrir e na hora do cafe ali pelas dez da manha você pode comer uma bolacha com o que quer que você vá beber. A segunda bolacha não e nunca oferecida, assim que cada um se serve e a lata e fechada imediatamente pela dona da casa que a guarda de volta no armário sem muita cerimonia.Mesmo achando uma grosseria ela ja havia se acostumado com a hora da bolacha, algumas vezes pensava em pegar duas so para ver qual seria o grau da ofensa provocada mas sem muito apetite para conflitos desnecessários acabava deixando para la.   

Ela não se sentia inferior por limpar as casas e escutar as historias daquelas pessoas solitárias, doentes e velhas, pelo contrario ela se sentia privilegiada por poder ter a chance de entender a vida naquele estado, aquele trabalho mais que dinheiro havia lhe dado o conhecimento de  como seriam os últimos dias dela se ela não fizesse alguma coisa agora.

Isso as vezes lhe tirava o sono nas noites a fazendo escrever planos mirabolantes de como escapar daquele lugar, mas uma coisa era certa sua  morte seria no mínimo poética não se via morrendo atras da televisão mesmo por que ela achava que se morre so uma vez e deveria ser com algum estilo. 

Nas suas muitas tentativas de fuga tinha falhado, por muitas vezes tentou ir viver no sul daquele continente, mas acabava voltando carregada de frustração e sem entender o por que estava ali.

As complicações e os desafios de existir num lugar tão inóspito, talvez  poderiam ser esses os motivos que a traziam de volta, a vida não poderia ser fácil e sem desafios, ela era teimosa de natureza e quando não tinha que lutar com alguém ou alguma coisa perdia os estímulos.

Mas ja estava avançando em sua idade para não dizer que estava velha para tanta briga, não sabia o que era viver em paz, e a paz na verdade lhe incomodava, sofria do complexo da” mulher Maravilha”. Assim que era consciente que sempre  buscava os desafios e muitas vezes exagerava . 

O que mais marcava sua personalidade inadequada era aquele constante dialogo dentro dela a fazendo pensar e pensar e se perguntar os por que,poucos eram os dias que tinha algum silencio interno e quando acontecia era como se houvesse perdido a audição, a voz que falava constante mente havia se tornado sua companheira. Não pensem que ela imaginava essa voz era so parte dela mesma, uma marca registrada, muito natural , esse monologo ou dialogo mesmo por que muitas vezes em cima da bicicleta ela se pegava respondendo coisas, fazia parte do seu dia a dia. 

Como conseguiria viver sem se questionar? 

Viver sem perguntar a si mesma as inúmeras duvidas que tinha?

Como?

Voltando as casas e a limpeza,cada casa tinha seu próprio espirito que era construído pela historia  daquelas almas velhas, todos eles cuidavam de ser limpos e organizados, ter alguém que os ajudasse a manter seus espaços em ordem era uma maneira de continuar vivendo independente, de outra forma teriam que se mudar para um asilo, o que nenhum ser com saúde mental gostaria, o asilo era a certeza de um fim rápido, poucos resistiam a solidão e o esquecimentos daquelas casas que eram o ultimo endereço dos que ali entravam.

Ela fazia seu trabalho observando cada pedaço do passado, que encontrava na mobília daquelas casas empoeiradas e esquecidas, parecia muito interessada em aprender, era como escavar restos de uma civilização antiga, uma arqueóloga cultural, toda a informação que eles a ofereciam ela aceitava, ao contrario das conclusões diárias que tomava nada havia mudado,mas quem sabe sim, o mundo dos antigos que ja estavam morrendo era o mesmo dos modernos, ou não,  que se achavam tão diferentes e evoluídos.   

Todos acabavam ali no sofá da sala vendo TV o dia todo ate que a morte os viesse buscar sem piedade, onde seriam esquecidas as horas intermináveis de trabalho, as ausências familiares ,as ferias anuais, a única chance que tinham de sentir vivos e uma solidão que parecia um buraco negro que nunca podia ser saciada,resolvida.

A cidade em que vivia era de muita beleza e antiga, no verão era adorável andar pelas ruas estreitas e fazer piniques nos parques, apesar do desconforto cultural ela oferecia  a si mesma e a seu filho momentos de muita alegria e prazer.

Seus pouco amigos se espalhavam pelo mundo e isso não a incomodava era um bom motivo para viajar e estar sempre em movimento e sempre que podia ela fazia, tomava o trem noturno e acordava em Berlin se metia no ônibus e acordava em Paris, e quando lhe sobrava algum dinheiro extra  se metia no avião e logo estava tomando um cafe com sua amiga nas montanhas da  Toscana, so não sobrava tanto para visitar sua família que ficava do outro lado do oceano isso a fazia se sentir triste por não poder vê-los sempre que quisesse, e ao mesmo tempo não, pois ja vivera tantos anos sem eles que muitas vezes pareciam estranhos, com suas ideias e tendências políticas no mínimo vergonhosas que a fazia duvidar de seu parentesco.

Mas agora com a pandemia ela não sabia quando voltaria a sair dali novamente e isso lhe provocava um certo desespero uma sensação de perda e prisão. 



Voltamos a primeira casa, naquela casa viviam uma mãe, pai e um filho eram uma família de muçulmanos que haviam imigrado para aqueles cantos da Europa nos anos 70 quando o pais precisava de mão de obra para se modernizar e crescer.

O pai sofria de demência  e  ja não sabia mais quem eram os membros da família e muitas vezes tentava fugir de casa para voltar ao seu pais natal, onde numa dessas fugas ele havia pulado a janela no meio da noite e desapareceu por semanas so sendo encontrado na Franca onde dormia dentro de seu carro num estacionamento sem saber onde estava e para onde ia.

Sua mulher era de origem tribal Berbere e exibia uma tatuagem no queixo , tinha maneiras duras e vivia sentada no sofá, murcha como um pássaro triste, so falava Árabe o que a limitava muito e ampliava sua solidão, naquela casa cheia de memórias, ali passava suas horas e dias com suas dores provocadas pela artrites e um coração partido.

O filho que  ainda vivia com eles sofria de deficiência física e mental, não falava e não conseguia andar sozinho, seus olhos curiosos sempre buscavam pelos barulhos diferentes ao seu redor quando Ela estava por  la, muitas vezes ela fazia de propósito movimentos teatrais para distrai-lo e ele ria, mas muitas vezes ele a olhava com descaso como que dizendo esse eu ja conhecia.

Assim que ela entrava na casa trocava seus sapatos por uns chinelos rosa horríveis que a velha Berbere lhe havia preparado, dizia bom dia ao filho ali sentado na sala mesmo sabendo que ele não responderia e logo começava seu trabalho que executava com movimentos mecânicos.

Enquanto trabalhava escutava as vozes da novela que a velha assistia em árabe onde havia muito choro, e mulheres  desesperadas buscando por socorro.  

A casa era a mais suja de todas, ela não sabia se era pelas doenças ou pela cultura, eles jogavam tudo pelo chão, comida, papeis usados e outras coisas estranhas que ela encontrava de quando em quando.Havia uma pobreza que pairava naquele lugar, todos pareciam passarinhos presos numa gaiola diferente, o filho preso no corpo, a mãe presa na sua solidão de mulher e o pai preso no passado querendo voltar para casa, uma casa que não existia mais, um lugar que ele havia deixado ha muitos anos atrás.

Sua vontade e desespero de voltar para essa historia que havia ficado ha décadas na Africa do Norte lhe garantiu uma passagem so de ida para uma casa para idosos, deixando sua mulher Berbere e seu filho vivendo sozinhos naquele apartamento sem graça, esperando pela hora da morte.

Mesmo com muita desilusão,tristeza e doenças  a velha tinha muito medo da pandemia e outras situações que poderiam levar ela para o outro plano, assim que dentro de casa usava mascara para se proteger de qualquer possibilidade de contrair a nova doença, quando alguém tossia ou espirava ela se encolhia num canto e cobria a boca e parte do rosto com seu lenço de cabeça  criando uma barreira invisível entre o mundo dela e dos outros como se nada a pudesse alcançar naquele lugar. Todas as  segundas-feiras naquele endereço  tão desagradável Ela era  afrontada com sua própria situação de imigrante, ela pensava qual seria sua gaiola , qual seria o sentimento que a estava prendendo a uma existência que não ha fazia feliz.

Ser mãe foi sua opção e veio com consequências reais as quais ela nunca se arrependia ela amava ser mãe daquela criatura, suas responsabilidades ela as tomava com devoção, talvez sua devoção fosse sua gaiola, todo sofrimento do filho ela carregava  em si o livrando sempre que podia , ela se sentia responsável por ele, por que sabia que ela era a única pessoa que ele tinha.

Desde o principio ela sabia que seria assim e não havia arrependimentos, o evento materno fez brotar dentro dela poderes que ela nunca havia conhecido antes,  apesar da responsabilidade gigante e das mudanças físicas, emocionais e financeiras que não eram propriamente confortáveis ela sabia que cuidar para que aquela criatura crescesse era uma missão que ela amava. 

Gostaria de pensar diferente e ser mais livre na sua criação mas via as consequências das crianças ao seu redor crescendo com os pais ausentes que estavam sempre preocupados com suas carreiras e fazer dinheiro, ela queria ter a experiência completa, se envolver naquela situação, mesmo por que ela não sabia ser diferente.

Talvez a velha Berbere e seu marido também tenham pensado como Ela quando tiveram seus filhos e se mudaram para um pais totalmente oposto a sua antiga existência, deixando as terras encantadas do Marrocos, tentando lhes dar uma vida melhor, não importavam os motivos, todos estavam ali naquela historia com cenários diferentes  a família Berbere com suas dores e doenças  e ela com seu filho pequeno e sua solidão materna.

O que poderia mudar o destino dela, seria a decisão de  como ela iria fazer as coisas  a partir desse momento de lucidez que tinha quando era confrontada com a historia das pessoas que a cercavam.

Como seria mãe e buscar sua própria felicidade sem sacrificar os momentos e o tempo que seu filho precisava, para crescer de uma forma mais equilibrada?

Sua existência e suas escolhas não davam espaço a sacrifícios ela não abriria mão de sua condição materna para fazer qualquer outra coisa.

Fazer isso era como dizer sim a maldição que a sociedade impunha as mulheres que escolheram procriar e ter uma vida feliz, ser mãe foi ensinado a ela que era sinônimo de sacrifício, um sacrifício abençoado pelo o mundo masculino.  

De volta la limpeza 

A tarefa que ela mais odiava na casa era arrumar a cama, era uma cama com uma cor bege feia com lençóis diferentes e de mal gosto, os travesseiros cheiravam forte a suor e um perfume que revirava seu estômago, antes de começar a arrumar o quarto ela abria as janelas e as portas para que aquele cheiro pudesse ir embora, o que demorava, pois ja havia entrado nas fibras baratas da roupa de cama.

Muitas vezes haviam manchas estranhas por todas as partes, fluidos corporais que ela ignorava como uma visão que seus olhos não transmitia para seu cérebro,  a qual você  não quer que faca parte de seu subconsciente, sem muitas demora em alguns actos físicos a cama ja estava pronta. Ela sabia que o que a incomodava era a ideia de saber que ali dormia a velha Berbere e seu filho de 40 anos.

Durante a noite a velha tinha que ajuda-lo ir ao banheiro e virar-se na cama e muitas vezes ela não dormia por dias, cuidando daquela criança que não cresceu.

Aquele quarto a deixava deprimida a fazia sentir o peso de ser mãe e a solidão inexplicável que ela não podia dividir com nenhuma alma mesmo por que se fizesse  achariam que ela era egoísta, uma irresponsável que não havia pensado nas consequências de seus atos, aquela cama era a prova da falta de respeito que o mundo tinha pelas mulheres, da falta de responsabilidade que a sociedade tinha pelas mães.

Quando ela estava ja quase terminando as tarefas diárias, começava a se ver fora do prédio em cima de sua bicicleta sentindo o vento frio no rosto, era como se aquela brisa fria a lavasse de toda a tristeza que ela havia encontrado vendo aquelas pessoas que se se resignaram aos seus finais, presos naquela caixa, como se esperassem por “Ala” para tira-los dali, para salva-los, para perdoa-los dos pecados de sua existência.

De que valeu tanto sacrifício durante décadas de trabalho e abstinência social para fazer os filhos crescerem num pais onde poderiam ter uma vida “melhor”?

O que era o “melhor”? 

Num ultimo acto ela caminhava pelos cômodos olhando um por um, sempre imaginava que aquela seria a ultima vez que faria a ronda vendo se tudo estava no lugar , via as camas esticadas escondendo as manchas noturnas, as fotos sorrindo numa vida passada, sem poeira, a cozinha sem papeis jogados pelo chão, o banheiro fedendo a agua sanitária, os restos de comida que haviam desaparecido. Via o filho da Berbere sentado logo ali a olhando e ela o olhava sem reservas tentando entender aquele momento de silencio que eles se proporcionavam, como se estivessem tentando capturar-se fazendo um da alma do outro o que lhes desse mais prazer, parecia um duelo de olhos que mediam suas forças, numa outro plano fisico ou espiritual.

As vezes ela pensava em estar ali invisível  e ver tudo se sujando novamente, ver o descaso dos moradores daquele lugar que não se davam ao trabalho de por os papeis no lixo,  ver o suor escorrendo pelo pescoço da velha e do filho enquanto dormiam, vê-los usando o banheiro sem cuidado.

Talvez esse fosse o ultimo acto de rebeldia daquelas pessoas que estavam muito próximas a deixar esse mundo e se existisse uma outra dimensão quem sabe começar novamente, mas dessa vez com boas maneiras, sem papel pelo chão e restos de comida jogados em todos os orifícios acessíveis.

Parecia que quando a vida estava a beira do fim as pessoas perdiam sua moralidade que as havia guiado para acabar justamente ali, no fim da historia, e quando descobriam que aquela moral que os havia mostrado o caminho era a responsável pelo resultado de suas historias que nem sempre era satisfatório eles se revoltavam e se tornavam outras personagens, amargos, tristes.

Talvez o grande segredo seria mudar de moral muitas vezes na vida ate o ultimo momento o ultimo respiro, para que pudéssemos dizer que tentamos de tudo e que o medo não nos paralisou, que vivemos, que fomos nessa existência Heróis e violões.      

Sem muitas palavras ela deixava a casa para trás, a velha Berbere a olhava com uma certa vontade de segui-la porta a fora abandonando aquela historia onde ela havia sido prisioneira de seus afazeres de mulher por dezenas de anos. Ela olhava a velha Berbere de volta e com dores emocionais, por um momento pensava se ela pudesse a levaria dali, a libertaria,lhe devolveria alguns anos de sua vida para que pudesse encontrar a felicidade.

Com um “ ate a próxima semana” se despedia sentindo ja o vento frio lavando seu rosto das lagrimas invasoras que a velha jamais veria.

Logo após terminar seu dia de trabalho ela comprava comida no mercado biológico da cidade, isso fazia com que ela se sentisse melhor,  estar num pais de primeiro mundo e não saber aproveitar essa oportunidade era como cometer um pecado sabendo que era um pecado, então uma de suas regras internas era dar-se e dar a seu filho as oportunidades que ainda existiam sendo uma moradora daquele lugar. Na verdade ela não sabia se era um previlégio ou uma prisão de luxo, não importava, ela estava ali e muitas pessoas não, então era mais que sua obrigação fazer o melhor daquela experiência e o melhor para ela era ser mais consciente, respeitar o resto do mundo e tentar viver de uma forma que ela não causasse tantos problemas ao planeta e sem duvida isso era um luxo, mesmo por que ter essa consciência so se e possível quando se possui uma estrutura econômica que não nos leve a cometer e fazer coisas que na verdade não aprovamos, mas as vezes sobreviver e mais importante que a natureza, e uma prioridade. 

Depois das compras biológicas e uma visita a loja de usados onde encontrava livros e discos que faziam seus dias de inverno mais aceitáveis, buscava seu filho e os dois voltavam rápido para casa fugindo do frio.

O norte onde ela estava  quando esfriava não era muito interessante,  tudo parecia dormir

, por esse tempo de falta de luz que eram dias,meses no escuro sem ver o sol. 

As pessoas no norte quando esfria faz inverno dentro delas, andam pelas ruas e em cimas das bicicletas, são como casas fechadas esperando o verão,para que quando o sol e o calor voltem possam abrir suas cortinas físicas e emocionais  para tentar viver mais uma vez.

Nesses dias escuros e gelados ela também se recolhia mas suas janelas jamais vestiam  cortinas elas estavam sempre abertas esperando uma luz furtiva que entraria e iluminaria aquele cenário.  

Seus dias de reclusão materna eram preenchidos de um misto de solidão e curiosidade, ela via aquela vida tão nova e fresca se desenvolvendo e pensava em como aproveitar a sua que passava tão rápido que ela mesma tinha medo de um dia acordar e ver seu filho adulto e ela uma velha que não fez nada mais que ver os invernos passarem. 

Ela sabia que queria mudar,  sabia que aquela era a hora, mesmo por que quem sabe se esperasse mais seria muito tarde, não haveria mais tempo, não haveria mais energia, e incomodada com seus pensamentos que a consumiam diariamente, mesmo por que naqueles tempos de pandemia lhe sobrava espaço e silencio para seus diálogos mentais que se arrastavam por horas sem oferecer nenhuma solução,vivia em aflição, buscando respostas e uma porta de saída. Com dores físicas e  do espirito  acompanhada de seus pensamentos ela acabava dormindo naquele quarto cheio de plantas e livros que havia acumulado durante anos, a luz fraca de sal do Himalaia se misturava com a luz da tela de seu velho imac e seu corpo anestesiado entregue sonhava com as mentiras doces do Netflix.

Dormia cinco horas  inteiras quando tinha sorte e não acordava no meio da noite com algum barulho estranho da rua ou do jardim, sua vida anterior havia criado um mecanismo de defesa que mesmo dormindo ela estava alerta, sabia que era ela quem deveria defender a casa e cuidar para que nada acontecesse.

Antes de dormir ela checava as janelas, as portas, o gás, isso ela fazia três vezes no mínimo, desligava as luzes e colocava a vassoura cruzada na porta como havia aprendido de sua avo.  

So assim se sentia segura para ir para seu quarto descansar e tinha a ideia que estava protegida do mundo dos vivos e dos mortos.  



A segunda casa 

 Antes de deixar seu pais para vir para essas partes do mundo ela trabalhava nas ruas de uma grande metrópole  atras de sua câmera criando imagens e enchendo as paginas de um jornal sangrento e medíocre que as pessoas com pouco dinheiro gostavam de ler nos ônibus e metros lotados antes de chegar ao endereço onde sustentariam com seu suor aquela maquina econômica corrupta  que não se dava ao trabalho de mudar.

Ela tinha esse dom que todo mundo queria contar suas historias a ela, e suas orelhas atraiam as mais diferentes narrativas, antes atras da câmera de fotografia  e hoje ali atras da vassoura. 

Aqueles lados do mundo onde ela estava agora, ela cresceu vendo nos livros da escola o que lhe havia despertado curiosidade mas nunca havia sonhado em estar ali, um dos capítulos da historia estrangeira que mais a interessava eram as grandes guerras ela não sabia por que, mas se pegava chorando e vivendo as dores daquele povo perseguido e morto pela loucura dos chamados brancos .

Anos mais tarde ela viria a descobrir que boa parte de seu sangue era de origem estrangeira e o fato dela estar ali naquelas terras distantes era nada mais nada menos que sua memória genética a chamando para voltar para casa, ela so esperava não viver os mesmos dramas que seus antepassados.

Nesses dias ela residia numa dessas ruas onde a política local achava de bom tom misturar as pessoas vindas de todos os cantos do mundo, então ali naqueles poucos metros de moradias de um grupo que sustentavam a base da pirâmide econômica ela vivia com mais tantas nacionalidades ao seu redor.

Em seu coração ela chamava essa situação  de “Apartheid" mas como ser critico era tabu por aqueles lados da cidade  quando não se era branco, para não ser classificada de radical, ela guardava aquele conhecimento so no seu coração, se ela pudessem viver dois bairros logo a frente do seu seria considerada socialmente engajada por ter esses pensamentos, mas não ali no meio de tantos e tão diferentes.  

No seu bairro tinham uma escola especial para as crianças das famílias que vinham de fora, era um prédio bonito e novo com um parquinho cheio de brinquedos ecológicos, essas escolas eram chamadas escolas negras por so terem filhos de imigrantes, nenhuma família não imigrante mandava seus filhos para aquele prédio novinho com brinquedos ecológicos, o que ajudava a manter a “tradição” do adjectivo aderido a palavra escola, “Escola Negra”.     

Viver num lugar como aquele era ser considerado de menos valor social os papeis da prefeitura e os homens que administravam diziam que pessoas que viriam a viver ali naquelas casas chamadas casas sociais seriam pessoas inferiores aos valores daquele padrão econômico que todos sonhavam em alcançar, menos ela.

Ela achava importante ensinar a seu filho que a vida e o mundo era feito/a de diferenças e que ninguém teria ou era igual ao outro em todos os aspectos, a única coisas que nos unia no final de tudo era a chamada humanidade.

Muitas vezes o menino chegava em casa com perguntas difíceis de responder, ele tinha olhos críticos que talvez tenha herdado de sua mãe e seus antepassados  e queria saber os porquês das coisas, ela pensava bem nas respostas pois não queria semear nenhum tipo de discórdia naquele coração infantil.

As visitas eram poucas em seu endereço  e de quando em quando ela fazia tentativas para se conectar com os locais o que lhe custava muita energia e irritações.

Ela havia criado para ela e seu filho uma casa que rompia padrões, as casas brancas e estéreis ou decoradas com produtos de pouco valor a faziam se sentir sufocada e sem vida, tudo parecia evitar a identidade da pessoa que estava ali, identidade era  também uma palavra “tabu”, ela acreditava que quando a população não “local”  tomassem consciência de quem eram e como eram vistos e manuseados seria o começo de uma revolução, então o povo la do alto da tal pirâmide evitavam essa tal de identidade. De onde ela veio ter identidade era uma forma de sobreviver a tudo, num repente todos tentavam sufocar o que ela havia criado grão a grão todos aqueles anos de sua existência, sua autenticidade era vista como uma forma inaceitável de ser que não era tolerada. 

Com o passar dos anos ela aprendeu a fazer silencio e sua voz foi se interiorizando, como aquelas plantas que se adaptam ao pouco espaço que tem para crescer.   

Por exemplo as pessoas locais tinham problemas em pronunciar seu nome, a chamavam de muitas coisas que ela não era, no começo ela achava que era uma forma de lhe humilhar quando alguém não se da ao trabalho de dizer corretamente as letras juntas que contam quem você e.

Com o passar do tempo ela ficou ela, você , senhora , imigrante, mulher,mãe  e o nome dela foi desaparecendo e sem perceber ela se tornou  Ela e ela usava ela como seu próprio nome, tão pouco  fazia questão de chamar os outros pelos seus devidos nomes  e fazia como eles faziam com ela, eles passaram a se chamar eles e ela tão pouco tinha problema com isso. 

Raramente quando alguém a chamava como devia ela se sentia estranha como se ja não pertencesse mais ao significado daquela palavra, e quando via seu nome escrito num dos muitos papeis daquela vida cheia de tarefas administrativas ela olhava por longos minutos como que buscando uma significado para seu nome e sobrenomes que levava.

Quando seu filho nasceu lhe deu nome de reis e imperadores, o total eram  três nomes de reis e de um imperador romano e mais seu sobrenome, o engraçado era que o menino sonhava em ser Faraó. 

A distorção de sua pessoa, as mudanças de clima e de língua, cultura, arquitetura  causaram grande influencia em quem ela havia se tornado, na verdade ela era uma estranha onde quer que fosse, as pessoas não tinham muita paciência de entende-la sem falar que a temiam por sua língua afiada que mesmo sem ela querer as vezes denunciava sua maneira de pensar inapropriada em quase todos os círculos sociais.     

Era mais uma manha fria e úmida, as vezes ela sentia como se o verão houvesse ficado séculos atras e o sol era uma lembrança vaga que aparecia na memória naqueles dias onde a luz era um luxo , as ruas molhadas e pintadas em cores escuras pela a quantidade de agua que encharcava o asfalto e as calçadas não ajudava a melhorar o humor.

Depois de tocar a campainha pela terceira vez uma mão lerda, que sofria as consequências da idade abria a porta que tinha uma tranca com três voltas, cada estalo da tranca abrindo custava uma eternidade e ela na sua poesia domestica apreciava aqueles estalos como uma sinfonia, clek,clek,clek.

A cara branca usando óculos com seus olhos apagados olhava ela, com um sorriso quase alegre e sem muita emoção.

”Bom dia senhora. Como esta?” 

Antes mesmo que a mulher anciã respondesse ela ja sabia a resposta que saia daquela boca com dentes postiços como se fosse uma previsão do alem, “ tirando a dor nas costas esta tudo bem”.

Com passos indecisos e sem muita atenção para a presença dela naquele lugar a anciã voltava para a  sala onde tomava seu cafe da manha com seu parceiro de muitas décadas e  tão velho quanto ela, o companheiro ancião sem se dar ao trabalho de se virar por completo a saudava desde a distancia usando o resto da masculinidade da sua voz lhe oferecendo um vigoroso bom dia.

Assim que terminavam de comer seu cafe da manha austero, não por falta de dinheiro mas por costume, ali mesmo no sofá se libertavam dos pedaços duros da comida que lhes incomodavam debaixo de suas próteses dentarias, sem a menor cerimonia cada um com sua prótese nas mãos cuidavam para que seus dentes de mentira estivessem limpos.

Ela via aquela cena do vidro do quarto que dava para sala se perguntando como era possível tanta intimidade, se e que aquilo era intimidade.

Logo se vestiam dos dentes limpos e os dois iam para cozinha lavar os copos de cafe com passos lentos que fazia com que o barulho de seus sapatos ecoassem no corredor  com pausas longas tok……tok…..tok…..tok……   

O parceiro ancião sempre a fazia sorrir quando se esforçava tanto para demonstrar o homen que havia sido, fazendo uso de sua energia alfa, na verdade ela tinha muita simpatia por ele, mas a velha anciã não apreciava a proximidade com que ela falava com seu companheiro e para evitar qualquer tipo de desagrado ela se mantinha a distancia daquele quase homen.

Quem sabe era isso que lhe encantava no velho ancião ele era um homen que havia perdido todas as cascas da masculinidade toxica que sua geração o havia imposto, so restando aquele ali, o miolo do ser que ele foi um dia, era como cortar a cebola, ou abrir um abacate.

A casa toda cheirava a urina ele o ancião precisava usar fraudas a noite, pois sofria de uma dessas doenças que vão destruindo as funções do corpo pouco a pouco, assim que ir ao banheiro era a função da vez a ser destruída e quando usava o vaso sanitário urinava mais no chão que no lugar indicado.

Tomar banho também era uma actividade complicada, pois não conseguia ficar de pe assim tinha que se sentar numa cadeira de plástico feia de cor verde apagado, cheia de orifícios  os quais ela não gostava de pensar o por que de tantas entradas e saídas.



 Ele havia sido um homen muito activo que praticava esportes e colecionava moedas e selos antigos, a casa era tomada de  inúmeras caixas que povoavam os armários,todas fechadas e muitas lacradas, isso era uma das coisas que a fascinava naquela moradia.

Ela sonhava em poder abri-las e descobrir os segredos da vida masculina quase extinta que o ancião havia tido. Quem sabe ali encontraria histórias de amor escondidas, crimes jamais confessados, filhos espalhados pelo mundo. Alguma informação que o libertasse daquele fim triste e ordinário de um homen que vivia em seus últimos dias, que quando falava por algum tempo uma baba lhe escorria pelo quanto da boca se pendurando em sua barba branca indo molhar-lhe a camisa.

Quando ele comia sua bolacha as dez da manha ela via a pele flácida do pescoço que se esticava com dificuldade a cada movimento da mandíbula para triturar a comida que teimava em resistir, fazendo com que ele tomasse um gole de cafe, que amolecia a massa doce que logo desaparecia em sua garganta fazendo um barulho estranho.

O tempo não havia levado seus cabelos como na maioria dos homens e ele desfrutava de um topete branco que com cuidado era moldado com gel ultra resistente, isso o deixava com uma cabeça brilhante e imponente.

Quando caminhava, o  que fazia muito, se curvava de forma sutil como usando o resto de sua dignidade para manter o corpo quase ereto, seus sapatos não se levantavam no ar por completo onde no final de seu passo se escutava um leve arrastar, isso se notava nas partes externas do calçado gasto.

Sempre estava muito limpo apesar da urina, se banhava todas as manhas e usava um perfume agradável, sua camisa ele usava dentro da calça esticadinha, se vestia com cores que por um acaso ou por cuidado combinavam com o resto do que levava no corpo.

Ele era o contrario de sua companheira que mais parecia um tanque de guerra, imponente apesar da idade e das doenças, cinza com muitas restrições e poucas palavras completamente isolada em sua bolha de mulher nascida no começo do século passado.        

O ancião costumava falar muito dos tempos da guerra e ela ficava hipnotizada por suas histórias esquecendo das tarefas desagradáveis que tinha que cumprir para garantir que aquela casa estivesse limpa o suficiente.

Ele com os olhos mais abertos que de costume lhe descrevia cenas daqueles dias de inverno e fome como se estivessem se passando em sua frente mais uma vez.

“Me lembro como se fosse hoje era uma segunda-feira inverno de 1944 e não tinhamos pão, meus irmãos estavam chorando e minha mãe mandou a mim um menino de 9 anos que fosse pedir nas portas por comida. Sem reclamar me levantei e fui,  cheguei dois dias depois com comida para todos. Caminhei por horas, dormi num abrigo para pessoas que estavam fugindo da guerra, nessa noite um homen jovem me desenhou a luz de velas e me contou que vinha de longe onde ja não havia mais casas para as pessoas estarem e tão pouco o que comer.Naquele dia quando voltava para casa me encontrei com minha irmã mais velha que havia desaparecido ha mais de uma semana, ela estava estranha e não falava comigo caminhamos juntos de volta e encontramos minha mãe na porta, que nos recebeu sem muita emoção. Minha irmã nunca foi a mesma depois daquela semana de 44, e ninguém sabe o que aconteceu com ela nos dias em que ficou desaparecida, morreu em silencio e levou esse segredo com ela para seu túmulo.”

Depois de cada historia dessas dávamos todos graças pelos dias de hoje e por termos tanta abundância, nossa miséria actual e desigualdade social econômica não eram nada comparados a aqueles dias de inverno de 44, onde as pessoas morriam como moscas pela fome e pelo frio e inúmeras doenças.

Essa gratidão não  cabia a ela, não era sua historia o sofrimento daquela geração quase extinta não a  confortava na sua angustia diária  por sua existência naquele lugar que servia única e exclusivamente para cuidar de seu filho, essa  era seu conflito pessoal, sua guerra, seu inverno interno.

Não podia se conformar ou se comparar com aqueles que nasceram ali, mesmo estando naquela sociedade fisicamente, seu mundo era outro, suas necessidades eram outras. 

Será que estava sendo covarde?

Será que não teria que mudar tudo aquilo?

Será que a vida não oferecia mais possibilidades que aquela?

O que fazia ali limpando a urina daquelas pessoas que logo deixariam esse mundo?

O que o ancião sabia das suas dificuldades existenciais de mulher, mãe  ?

A historia do ancião e a historia dela não tinham nada de contemporâneas, o ser humano para ela havia se banalizado o valor de ser gente era uma bagatela, pelo menos para ela naquele lugar que hoje mesmo sem ela querer era sua casa.

Suas reflexões a fazia esquecer o mal cheiro das fraudas que lhe davam dor de cabeça  e sem que ela se desse conta suas duas horas haviam terminado e lavando as mãos na pia do banheiro antes de ganhar a rua via seu rosto reflectido no espelho e se perguntava ate quando ela faria aquilo.

Não podia esperar que seu filho completasse 18 anos para poder mudar de vida, não poderia dar essa responsabilidade a existência daquela criança, ela estava perdida  e tinha uma certa depressão moral.

Se sentia castrada de sua própria identidade, alguma coisa, alguém havia lhe tirado o que ela sempre foi , so lhe restava saber quem e quando e resgatar de volta tudo que e, tudo que foi e tudo que seria seu. 

Com um ultimo olhar critico no espelho secava as mãos no jeans por que tinha nojo da toalha, imaginava o ancião limpando a baba ali quando sua companheira não estava vendo, a toalha tinha uns pedaços duros de não sei que, aqui e ali, ela ignorava a toalha e o pensamento que tentava imaginar o que poderia ser as manchas escuras  rígidas que mudavam a estampa do tecido pendurado.

Com uma certa alegria e leveza vestia o casaco, o xale, as luvas, pegava sua bolsa e com um “ate  a próxima semana “ deixava a casa respirando o ar fresco da rua e limpando aquele cheiro de urina que ficava pregado nas narinas e nos pulmões.

Ainda chovia mas não era de todo mal sua alma e corpo necessitavam ser lavados daquilo.

Em meio a agua vinda do céu e suas lagrimas de confusão ela seguia em direção a escola para buscar seu filho, mais um dia vivido naquele cenário.  

Quando os dias acabavam ela tinha um misto de alegria e tristeza , parecia ter vencido mais uma de suas batalhas e parecia ter perdido seu dia não fazendo o que ela queria, mas fazendo o que era necessário.

Fazer o que e necessário e como vestir um casaco de couro sem forro onde você sente sua pele grudando na pele do animal que foi morto para que você o pudesse vestir. E uma sensação estranha de poder e inércia ao mesmo tempo, poder por que você faz mesmo contra todos os seus sentimentos de inércia por que você não se liberta não toma uma outra direção pois naquele momento não pode pagar as consequências de suas  escolhas.

Quando chegava em sua casa deixava o mundo la fora, se exilava de tudo que a poderia incomodar e quase dormida de cansaço, buscava seus pequenos prazeres como musica de vinil tocada logo que a porta abria, um bom copo de porto, e uma boa comida que cozinhava fresca e BIOLÓGICA e os dois, mãe e filho se sentavam a mesa e com interesse falavam sobre as novidades infantis ocorridas nas ultimas horas.

Ela olhava aquela pequena cabeça falante que sem ponto e sem virgula lhe contava as aventuras da escola da professora mal humorada, e imaginava o que seria deles passada uma década, como seriam e onde estariam. Talvez ela não estivesse mais ali, talvez ele não falasse mais de sua vida com ela daquela forma tão livre e tão alegre, talvez a vida a empurrasse para outras paisagens.

O futuro era tão incerto que ela preferia não fazer planos a longo prazo e praticando seu budismo do youtube ela permanecia no aqui e agora.  

Sonhar era um remédio para a alma e segundo ela sonhar era o começo de toda realidade, assim que junto com seu filho sonhavam, era tão mais fácil sonhar junto com ele, ela havia perdido o habito de sonhar  seus próprios sonhos.

Ter sonhos que não fossem relacionados a sua situação materna lhe provocava ataques de consciência, como se houvesse sido proibida de ser ela mesma logo que se tornou mãe, ela se sentia como se a palavra mãe houvesse se tornado seu único adjetivo.   

Antes do filho chegar ela sonhou muito, ela estava em seus 37 anos e decidida ir viver em Nova York  quando o desejo da maternidade falou mais alto, na verdade a maternidade gritou dentro dela não deixando espaço para uma outra decisão que não fosse aquela, se tornar mãe. 

Mesmo ja estando velha para tal experiência assim diziam seus amigos e completamente desenganada pelo doutor, que a olhou com descaso e lhe disse que as chances eram minúsculas que pudesse engravidar e ainda assim tinha uma grande possibilidade de ter um criança com alguma doença, devido sua idade.

A perspectiva não era muito animadora mas sem ter nenhuma duvida ela seguiu com o plano sem esperar que fosse dar certo, queria se dar a chance assim jamais poderia dizer que não havia tentado, e sem esperar num dia estranho acabou descobrindo que ia ser mãe.   

Ela sabia que ser mãe não era o fim de seus sonhos a única coisa que ela não sabia e que iria lhe custar tanta energia e tantas noites sem dormir, mas ela não disse não a suas tarefas maternas e as exercia como um soldado seguindo sua voz interna que a guiava naquela missão solitária que havia assumido.

Depois de lavar a louca em sua cozinha pequena com cores fortes, repletas de objectos aleatórios que ela ia colecionando e uma maquina de lavar que mais parecia uma bomba quando tentava centrifugar as roupas, ela preparava seu chá noturno como uma poção que a levaria para um outro mundo, cheia de pensamentos subia para  seu quarto em silencio com suas pantufas de lã de carneiro  e ainda gritava la de dentro um ultimo boa noite ao pequeno.

Na frente do espelho examinava seu corpo com uma certa ansiedade reconhecendo os traços dos anos, deixados logo ali em suas carnes brancas por falta de sol, era como se procurasse naquele corpo alguma chave que abrisse algum lugar a levando de volta a si mesma. Não adiantava a busca, seu sentimento de partida era constante ela ja não estava mais dentro daquele rosto, não era mais a mesma que havia sido sustentada por aquelas pernas, ela se via em coisas e pessoas ao seu redor como se seu ser houvesse sido confiscado onde cada um era um novo dono de um pequeno pedaço dela, era como desaparecer estando viva, era como morrer sem poder morrer.

As dificuldades de abrir-se ao mundo em que ela vivia eram sequelas das experiências que havia tido com pessoas que ha viam como um alvo fácil aos seus mal hábitos culturais e logo quando descobriam que ela não era uma presa frágil e que fugiria, faziam sua vida impossível .

Não foram muitas experiências necessárias para que ela aprendesse que o factor diferença atraia pessoas com intenções duvidosas, assim que após a chegada da criança,  ela os protegia desse estereotipo de humanos e era clara com aqueles que tentavam se aproximar os assustava logo de inicio.

Sua solidão não era uma opção era uma necessidade, não queria ser presa de ninguém nem submeter o pequeno a uma situação que lhe fosse causar dor vinda de uma pessoa estranha, ela não sentia falta do elemento masculino em sua vida pois ja trazia masculinidade suficiente dentro de si, como se isso também fosse desenvolvido ao longo de sua existência, ser feminina não era uma opção para ela  sendo mãe solo e vivendo num pais estranho.

“ Você nunca deve depender de nenhum homen”, esse era o mantra que seu pai repetia constantemente desde que se entendia por gente e antes que sua mãe a obrigasse a fazer parte das tarefas domestica ela vivia como um menino em cima de cavalos e jogando futebol, se sentia bem e livre, mas os meninos a odiavam por ser melhor que eles em muitas coisas. Numa idade infantil teve seu primeiro ciclo, aos nove anos , sua mãe naquela  data a obrigou a fazer parte de um mundo de mulher, opressor onde procriar era o sentido da vida feminina e  havia que se procriar dentro de uma estrutura que não permitia a existência do prazer. A mulher de uma forma geral se tornava um ser amargo e inexistente onde os filhos eram fardos a serem carregados lhe custando toda a alegria que aquela existência poderia lhe oferecer. 

Muitas vezes ela pensava que era o que ela estava fazendo dando sua vida e sua saúde para que seu filho crescesse em um lugar que lhe desse mais oportunidades.

A única  diferença era a rebelião que ela havia provocado dentro de si tentando se libertar de toda opressão alheia.

Rejeitou tudo de normal que o mundo ofereceu, mesmo por que não era uma oferta era uma troca e na verdade uma troca bem desonesta, aprendeu que sua liberdade ia lhe custar muito caro e sabia que tudo e todos ha fariam pagar o preço por não ser como se dever ser segundo a moral geral. 

Mas no fim estava se auto oprimindo.

O que era necessário para que ela se tornasse ela mesma, sendo   mãe? 

O que era ser ela mesma?

Limpar aquelas casas estar junto daqueles anciões, receber seus tratamentos quase simpáticos, compartilhar a solidão de cada um deles e suas perdas ao longo dos anos  era como caminhar para dentro de si e de seus próprios medos era como ir ao encontro de tudo aquilo que sempre a havia deixado paralisada, enfrentar os fantasmas, olha-los nos olhos sem recuar.

Fantasmas reais que a perseguiam diariamente, sua ascensão econômica impossível,sua falta de sociabilidade, seu sentimento de não saber o caminho, de não ter casa e nem raízes. Fantasmas criados pelas consequências de uma adaptação traumática que havia passado para estar ali naquele lugar. 

Parecia ouvir sua mãe saindo de uma daquelas cenas dramáticas do passado onde ela sem nenhum respeito lhe dizia “ Não sonhe alto assim o tombo vai ser menor”.

Quanto amargor havia herdado daquela mulher que a carregou por nove meses, quanta magoa sem ser resolvida,  não achava que sua vida era consequência de sua mãe mas era sua própria responsabilidade, não pretendia por a culpa em ninguém por suas escolhas mesmo por que sabia que so ela teria o poder de mudar tudo  aquilo. 




A terceira casa


Desde criança ela pensava que a vida não  podia ser so o que lhes mostravam, por causa disso cresceu achando que havia mais por trás de qualquer coisa, uma segunda interpretação de tudo, era necessário poder ler as entrelinhas, muitas vezes estava errada mas muitas vezes não.

Poucas pessoas se atreviam a ser reais e isso ela ja havia entendido, estar entrando naquele mundo novo e aprender todos os código culturais que foram se construindo por séculos era um trabalho árduo para alguém que vem de fora. Um trabalho que não era apreciado pelos locais pois quanto mais ignorante ficasse o estrangeiro melhor seria a convivência entre as duas partes.

Infelizmente não era o caso dela que não por vontade própria, mas por instinto sabia ler o outro que estava a sua frente.

Entender e saber ia alem da curiosidade era uma necessidade, uma fome critica, não para se achar melhor, mas simplesmente para não perder seu valor que o outro sempre que podia tentava lhe tirar.

“ Você pode fazer o que quiser, estudar, aprender a língua, tentar ser a melhor mas nunca vai ser como nos, sempre vamos fazer com que pessoas como você limpe nossas casas e nossos sapatos”. Ela nunca esqueceria aquela mulher cheia de ódio sentada  a sua frente, lhe cuspindo séculos de historia da supremacia da cor que não lhe pertencia, era quase impossível de traduzir tanta maldade em uma pessoa so. Assim ela havia começado sua tentativa de sair adiante naquele lugar que não a queria, “so se fosse para limpar as casas ou o sapatos”, ela estava ali fazendo justamente o que aquela mulher cheia de ódio ha 20 anos atras havia lhe dito.

A conversa naquela sala de aula que na verdade não passou de um monologo de ódio, que a senhora branca e frustrada havia lhe dito com prazer usando sua melhor gramática, havia feito brotar dentro dela como erva daninha um medo novo, um medo de terminar como aqueles velhos desbotados, mas a única forma de vencer esse mal agouro  era se entregar a ele ate aprender a domina-lo.   

Ela sabia que ninguém naqueles 20 anos jamais havia apreciado qualquer sucesso que ela havia tido e aprendeu  a guardar para si suas boas noticias ou qualquer prosperidade que viesse a ter, assim que aquele mundo não era estranho para ela.

Estar ali era aprender o que significava o ódio do outro contra pessoas como ela, um ódio que ninguém fazia questão de esconder, um ódio disfarçado de liberdade de expressão.      

Uma vez num de seus livros havia lido que Gandhi dizia que a melhor forma de conhecer uma nação era limpando seus banheiros, e ali estava ela conhecendo uma nação. 

Era quarta-feira e as coisas não eram muito diferentes a única coisa era que a dor no corpo era mais intensa e o frio incomodava mais por causa do cansaço acumulado durante os dois dias anteriores. A quarta-feira era o começo do fim quanto ja não tinha mais paciência ou inspiração para suportar a repetição das cenas diárias sem nenhuma mudança significante.

Não havia yoga, meditação ou exercício fisico que ajudasse a mudar o humor daquele dia cinza,denso, silencioso,triste,  ja  não aceitava sua própria auto - flagelação, não havia positividade suficiente para a fazer respirar sem sentir aquela dor incomoda da ansiedade.

“Bom dia menininha. Como esta? Saudável ?

Aqui estamos todos com saúde sem nenhum sinal de gripe”. As frases saiam da boca da anciã como uma fita cassete sem uma verdadeira emoção, era como se ela fosse obrigada a dizer alguma como um roteiro de um filme. 

Sem muita disposição nem para odiar aquelas observações dava um bom dia a dona da casa, que agora lhe mostrava os dentes num sorriso ensaiado que mais parecia um insulto.

A mulher ainda vestida em pijamas que deformavam seu corpo com cores apagadas, lhe abria a porta e continuava suas observações com vocabulário que o tempo não havia transformado.

Ela sem muito a dizer se metia a trabalhar para não continuar escutando suas baboseiras antigas, existia dois tipos de pessoas que lhe provocava certa irritação e a velha senhora era uma desses tipos.

A mulher via a mão de obra que Ela lhe oferecia como algo que melhorava seu status social de mulher velha branca local, agora ela tinha uma empregada.

Suas boas maneiras antigas eram carregadas em falsas simpatias, e a cada acto politicamente correto esperava uma olhar de agradecimento que Ela em sua anarquia não lhe sedia, fazendo com que a velha insistentemente buscasse por reconhecimento de sua bondade branca, mesmo por que  permitia ao estrangeiro estar em seu espaço privado, desfrutando do privilegio de servi-la. 

Hoje Ela não queria fazer parte daquele teatro so queria acabar aquela semana fria e cansativa e poder estar afastada de todos eles por alguns dias para tirar de seu espirito a imagem daquelas caras fúnebres e velhas que logo deixariam esse mundo e que não faziam questão nenhuma de mudar nada ao seu redor  por que haviam vivido assim sempre.

Sim, Ela estava cansada e ja não sabia mais o que havia que aprender limpando as privadas mijadas e mal usadas daquele povo que não fazia questão nenhuma de entender que o mundo onde eles nasceram não era o mesmo e jamais seria, por mais que eles se isolassem do outro o outro acabaria por fazer parte de sua vida em sua mais intima existência , o outro poderia ser a única  face e a única mão que eles viriam ter para segurar nos seus últimos dias.

Então ela perguntava  a si mesma , “por que não vou agora e deixo tudo isso para trás , minha responsabilidade , minha dor de estar aqui me fantasiando dessa mulher que eu não sei quem e”.

Qual era a questão ?

Qual era o caminho?

Qual era o sonho que ela havia esquecido?

Seria aquilo a vida ? Será que ela estava vivendo ? Será que era o fim de tudo?

Um trabalho adequado e com  uma ascensão social não mudaria nada, era como fazer parte de uma existência  confortável que iria silenciar toda rebeldia e revolução que havia dentro dela.

Estar ali naquele lugar que ela não queria estar, tendo experiências como aquelas era abrir caminho dentro da escuridão que ela carregava em si, era entrar num lugar que ela evitou sempre que pode, era desconstruir quem ela havia se programado para ser, no final tudo era uma opção sua .

Tocar todos aqueles sentimentos, expo-los, encarar seus medos, perder as coisas mais preciosas que ja havia possuído, entregar-se.

“ Eus estou aqui, sim, eu estou aqui.”

De volta a terceira casa 

O casal da terceira casa tinham se conhecido vendo Paul Newman ainda jovem nas telas em Branco e Negro, a mulher nunca havia esquecido o filme mas ele se dava ao direito em seus noventa anos e demente de dizer a sua velha companheira que ja não sabia mais como havia ocorrido tal encontro.

Ali sentado em sua cadeira azul giratória cheirando a novo, com seu livro grosso de palavras cruzadas e sua perna mecânica que lhe causava dor quando se mexia, ele olhava Ela que se deslocava com rapidez pela sala tentando dar ares de limpo para aquele pequeno museu de duas quase almas que era aquele lugar.

O quarto do velho casal era uma biblioteca a mulher preencheu as necessidades de sua vida com romances que a levavam a viver coisas que jamais havia se dado o direito. Inúmeras coleções de fotografias de sua família  preenchiam a estante, onde seus filhos ainda crianças sorriam para um mundo desconhecido, o espaço pequeno  e abafado era tomado de uma cama confortável. Logo ali debaixo daquele colchão caro se escondia um penico e uma balança onde os dois controlavam seus pesos devido a diabetes que  era herança de dias de muitos abusos gastronômicos. 

A sala sempre cheirava a suor e peidos  eles tinham o aquecedor ligado em fogo alto o tempo todo, era tão quente que parecia verão, haviam vivido por anos na Australia onde perderam o habito do frio severo que fazia nesses lados do mundo. 

O marido carregava os traumas da guerra, ele  nasceu e viveu na colónia  onde ser branco lhe trouxe muitas mordomias, mas assim que o inimigo chegou sua vida de criança bem nascida acabou e durante 2 anos esteve preso num campo de concentração Japonês onde sofreu com maus tratos e com a perda de seu pai que trabalhou tanto ate morrer exausto no clima quente e abafado da selva onde construiu uma linha de trem que nunca viu ser concluída.

Todas as lembranças dessas duas vidas quase centenárias enchiam aquela pequena casa, a velha tinha orgulho de falar das mordomias do passado  de seu parceiro e dos tantos servos que eles tinham tido antes de serem atacados pelos invasores. Mostrava fotos onde os empregados pousavam sentados aos pés dos patrões como cães  e a velha senhora achava muito generoso por parte de seus sogros permitir que aqueles que limpavam suas privadas também estivesse na foto.

Ela escutava as historias e via nos olhos da anciã  a satisfação e orgulho com a qual ela falava, com  a naturalidade de alguém que pensa ser superior.

“Sabe menininha, eles viviam muito bem na colônia , não precisavam fazer nada, tinham mão de obra para tudo.”

Ela sem responder escutava e se retirava, a senhora não lhe importava, a única coisa que a velha necessitava era um publico para contar as ultimas glorias de sua vida mesmo  que muitas delas não existissem mais. O brilho naqueles olhos apagados eram como se fossem a ultima luz dentro daquele corpo antigo ainda vestido em pijamas que teimava em segui-la pela casa contando e contando, muitas vezes a anciã  se cansava e se apoiava nos moveis com suas mãos enrugadas e brancas buscando um pouco de descanso para seu frenesi e prazer de ter alguém para partilhar a ideia de  como o passado havia sido generoso com eles.

“No final de tudo so restava pele e muito orgulho a ser exibido antes da morte”, pensava  Ela no limite de sua irritação.  

        

Quando era quase natal, cada um de seus clientes tinham ataques de solidariedade e Ela era o alvo de toda boa ação que eles podiam oferecer.

“O menininha, ja e quase natal!!!!”

Seus clientes lhe dava uma gorjeta, garrafas de vinho, coisas para seu filho,  mas tudo era muito pequeno nunca exageros, era como se eles tivessem medo que Ela se sentisse apreciada, especial, então seus atos de bondade Natalina eram medíocres.

A maioria das coisas iam parar no lixo e o pouco extra que eles lhe davam Ela comprava jogos da loteria onde nunca tinha sorte com eles, mas a sensação de que poderia ganhar um grande prêmio lhe fazia certa ilusão.

Ela tão pouco contava ao seu filho que seus clientes lhe davam presentes de natal ela nunca trazia alguma coisa para casa, não queria que ele crescesse com a ideia de que as pessoas que lhes dão coisas são boas.

Depois de duas horas de provação ela termina a terceira casa, a senhora sabia que ja era quase fim de expediente e numa ultima tentativa de enaltecer sua existência convida a empregada  para um cafe.

“Menininha , anda vamos tomar um cafe ?”

A velha nunca queria saber do outro, de suas historias de sua vida, sua necessidade era que alguém a escutasse e via na empregada a chance de ser ouvida, no fundo ela achava que a empregada tinha o dever de escuta-la, que escutar era uma de suas tarefas.  

Ela ja com seu casaco e cachecol olha a senhora com uma certa alegria e lhe informa que não será possível e que o cafe ficara para a próxima semana, talvez.

Os passos lentos a seguem ate a porta de saída e a anciã continua dizendo adeus ate que a empregada desaparece com sua bicicleta rua acima em direção a escola de seu filho para terminar mais um dia , que parecia ser o mesmo que o dia anterior e o dia antes daquele, e antes daquele.

Aquela repetição era como se ela estivesse num daqueles filmes de ficção cientifica onde o personagem acorda sempre no mesmo momento,  e sempre 2 de janeiros de 1985, na maioria das vezes eles so conseguem mudar a historia quando tentam fugir mudando os acontecimentos que eles ja sabem quais vão ser, o problema e que a historia cada vez que e mudada se torna trágica.

Como Ela  poderia  mudar aquela repetição ?

Tirando as coisas do lugar?

Fazer alguma coisa que não fosse natural ?

Será que isso traria alguma tragédia ?

Talvez essa fosse a solução para aquela vida de “Efeito borboleta”.

Tudo seria mais fácil se estivesse num filme onde a chance de ter um final feliz era maior.

Mas que final?

Quando se esta vivo nada se acaba e isso e bom e também ruim, por que muitas vezes gostaríamos que algumas coisas deixassem de existir que saíssem do roteiro de nossas vidas mesmo que fosse so por um momento. 


Aquela era a quarta casa e a ultima da semana , eram clientes novos e eram locais, a anciã tinha 81 anos e ele ali na beira dos 90.

A mulher estava com o braço quebrado depois de uma queda quando levava o cachorro para urinar e ele o marido devido muitas mazelas da idade não andava mais e fazia um ano que não deixava o apartamento onde sua única companhia constante eram seus tragos de bebida forte que começavam a ser ingeridos assim que as horas do dia avançavam, ou não.Tinham sempre uma vizinha que vinha visita-los com hora marcada, a tal vizinha havia perdido seu marido ha 40 anos atras e desde então os três não se deixavam, a vizinha ia junto nas ferias e as festas de família e todas as semanas eles a mandavam flores. Quando a vizinha chegava ninguém abria a porta pois ela tinha a chave e aos domingos o marido da nova cliente preparava um cafe da manha para alegrar a vida da mulher que vivia ali na porta ao lado por mais de cinquenta anos. Todos falavam dessa amizade colorida como algo muito natural, e Ela com um sorriso no rosto de quem entendeu tentava imaginar o que mais os dois anciões dividiam com a tal vizinha.

O que importa quando ja se e quase centenário e não ha nada mais la fora que o possa atrair? Via que naquela casa havia algo de diferente e que aquele casal encarava o final de sua jornada de outra forma, “ Quando  a morte chegar quero estar alegre” ele tinha essas tiradas de humor negro que fazia ela ali atras do aspirador de po rir. O velho senhor era alguém que a interessava,forte e lúcido sabia encarar seu fim com alguma dignidade, sem a moral ridícula do velhinho bonzinho ou do sábio, ele era so um homen que ia morrer e quando morresse queria estar feliz.

Ele entendeu “que a vida era como o cantar de uma pássaro”, isso disse o Johnny Depp no filme “ The Professor”, sim o velho homen havia entendido como era a vida e a morte.

Sua mulher não o repreendia nem no álcool e nem nas piadas de humor negro depois de sessenta anos de casados a senhora aceitava seu marido como era , mesmo que as vezes deixasse notar uma certa irritação.

“Essa mesa foi ele quem fez “, com orgulho e brilho nos olhos ela mostrava a habilidade que seu homen havia tido ainda quando podia com firmeza segurar as ferramentas de seu ganha pão.

A mesa era bonita e bem acabada se via que o velho senhor era dono de uma sensibilidade estética fabricando moveis exclusivos,  ele olhava em silencio para mesa e logo mudava de assunto e seus olhos se perdiam pela janela como que buscando alguma coisa que havia ficado la fora.

A senhora por sua vez não falava de si mesma, talvez por uma falsa modéstia, modéstia daquelas pessoas que perguntam muito do outro na esperança que o outro se interesse por ela.

Sempre deixando a si mesma nas sombras das conversas se comportando como a moderadora dos assuntos, aguardando o momento de brilhar e mostrar para que veio.

A  quarta casa como as outras era cheia de lembranças. “As pessoas quando envelhecem se tornam as guardiãs das lembranças do mundo e da boa moral”, pensava Ela e um sorriso atravessava seu rosto, imaginando quando e que ela encontraria alguém no fim de sua vida que houvesse descoberto os segredos de como quebrar aquele castelo de mentiras.

Sim, todas as pequenas mentiras diárias e coisas que fazemos para agradar outras pessoas para sermos aceitos e reconhecidos, o interesse fingido, o cafe na mesa, a voz controlada, o bom dia ou o ate logo, todas essas maneiras que chamamos de civilizadas que nos oprime constantemente, e que as executamos sem pensar nem mesmo no seu significado mesmo por que elas ja não significam mais nada.    

Como ser você mesmo  pelo menos quando se esta quase morrendo? Ela sentia que havia passado a vida seguindo regras, ate mesmo para morrer havia regras, de como um bom cidadão tem que terminar seus dias. 

A organização do homen como um grupo, aquilo que eles chamam de sociedade, havia ate mesmo lhe tirado a dignidade da morte, na verdade a morte era um evento econômico.

Trancamos eles em casa com muitos remédios para que passem dias longos atras dos gerânios olhando pela janela e se lembrado de quando podiam estar la fora e logo depois que suas ultimas fagulhas se apagarem e  ja não tiverem mais nada que lembrar, eles morrem.

As vezes ela se sentava nas poltronas dos anciães e se imaginava velha como eles, se deitava em suas camas e se imaginava estar ali presa por sessenta anos com a mesma pessoa, sentindo os cheiros do outro e ouvindo seus barulhos noturnos, ela cheirava seus perfumes e imitava suas falas.

Não acreditava que chegaria tão longe, a vida para ela era uma aventura estranha,havia ainda tanto para descobrir tanto para sentir, tanto para mudar, esse acreditar que a vida era algo diverso onde não tínhamos tempo de ser sempre a mesma coisa, esse acreditar ela entendia como sendo seu “super poder”, mesmo vivendo em meio tanta angustia poder entender que a vida era volátil e que nada era para sempre.   

Ela queria envelhecer sem moral, ser uma depravada em meio suas rugas e não se obrigar a mais nada, perder aqueles ares de boa pessoa, por que ela sabia que não era uma boa pessoa, queria esquecer suas lembranças , lembrar -se do passado como sendo a única coisa que lhe resta era como implorar para continuar ali naquele estado de miséria existencial onde nada mais lhe era permitido.

A casa dos novos clientes tinha muitos mistérios, quando ela chegava pela manha a senhora estava de pe na porta para recebe-la  ja vestida e muito educada, com sua bicicleta parada logo ali na entrada do prédio era necessário soar a campainha uma única vez para  que a porta se abrisse e o cachorro tão velho como os donos saísse para recebe-la com latidos potentes para sua idade e um odor que fazia justiça a sua situação geriátrica canina e a quantidade de pelos que carregava naquele corpo animal. Assim que entrava  a senhora desaparecia no banheiro e voltava a sair depois que a sala estivesse limpa, Ela entendia o motivo do desaparecimento e  começava a recolher as garrafas escondidas atras da cadeira gigante do velho senhor, para evitar o constrangimento da mulher que apesar de não se opor ao alcoolismo do marido se envergonhava de sua situação.

Entre a cadeira do homen e o sofá logo ali sempre havia pelas manhas embalagens vazias de bolachas, papel de balas,pelo de cachorro, cafe derramado, aparelho auditivo, telefone e sua agua ardente, as vezes mais que uma, o liquido ia desaparecendo rapidamente e as garrafas de vidro de cores diferentes com marcas diversas iam se renovando.

Ela levava tudo para cozinha e as colocava junto das outras bebidas alcoólicas que enchiam um armário, olhando o armário imaginava como seria ter uma conversa com o senhor naquela sala escura cheirando cachorro e bebendo daquele liquido tão forte que ate mesmo o cheiro a fazia se sentir embriagada . Ela abria a garrafa com cuidado e cheirava profundamente sentindo o álcool queimando a parte interna de seu nariz fazendo doer a cabeça e os olhos lagrimejar e logo a devolvia no armário junto das outras e apressada voltava para sala passando pelo banheiro onde estavam os dois velhos cochichando em um tom áspero, tinha vontade de parar e escutar o que diziam mas não se atrevia.

O casal de anciões  transtornados entram na sala e a olham como querendo dizer algo, ela continua seu trabalho como se não entendesse que eles queriam falar. Na  vida real não tem virgula para dar uma pausa e logo abrir o coração para o outro, assim  que o senhor sem muito rodeio disse “ vou passar o cafe”.

Ela foi convidada a sentar-se no sofá da sala que cheirava cachorro e sem ter uma outra escolha estava prestes a compartilhar com aquela família segredos 

íntimos, a situação não era estranha para ela e nem era a primeira vez, o maior mal de todos seus clientes era a solidão, não tinham  alguém que os olhasse de verdade, alguém que os tolerasse, alguém que os tratasse como pessoas capazes e ainda vivas.

Os últimos anos de existência de um ser humano parece um longo adeus e um estar sem estar, um partir sem partir, uma situação em suspenso esperando a consumação da morte. 

Ja ali sentada no meio do casal de anciães ela via a senhora com o olhar triste que sem necessitar de alguma autorização começou a despejar todas as suas dores maternas sobre a mesa e as frustrações de ainda naquela idade ter que se preocupar com o filho que nunca encontrou seu caminho na vida.

Ela sentiu empatia por que também era mãe, se fascinou com a historia onde havia drogas, filhos que não eram filhos, clinicas, terapias , tentativas de suicídio , sentiu a dor daquela mulher e logo depois se levantou e continuou seu trabalho como se não estivesse ouvido nada.

Se sentia desrespeitada como se fosse obrigada a compartilhar todas as confidencias daqueles dois seres  quase centenários,  onde a velha mulher dava gritinhos de alegria quando escutava o barulho da escova limpando o chão do banheiro  com exclamações no mínimo desnecessárias.

“Nos estamos muito contentes com você, nossa casa esta limpa e você ate esfrega o chão dos cômodos”.

Com ironia ela olhava o casal e continuava seu trabalho, esse era um dos problemas que ela tinha essa mania de fazer tudo bem feito, mesmo odiando limpar, limpava com uma perfeição que beirava a loucura. Se ajoelhava e aspirava debaixo das camas, esfregava o piso do banheiro, tirava o po das luzes e quando arrumava a geladeira organizava tanto que os velhos ficavam assustados com sua simetria. 

Sua maneira metódica e rígida de trabalhar era mais um reflexo da violência que ela sofria se submetendo a aqueles afazeres domésticos que a enchiam de tédio, assim que de uma forma violenta organizava e organizava.      

Depois das confissões do velho casal, da escova raspando o chão do banheiro, do aspirador violando todos os cantos acessíveis, Ela com um sorriso fino nos lábios que teimavam em não abrir deixava a casa nova com seus clientes para trás.

Não sabia se as confidencias eram uma maneira de justificar o álcool que desaparecia dentro do velho ou era uma maneira de dizer que ainda tinham um motivo para continuar vivendo, que nesse caso era o filho problema.

No caminho da escola em cima da bicicleta ela tentava entender a necessidade daquela mulher de contar seu drama de mãe,  a velha mãe so queria definir seu papel na historia daquela família, depois de falar de todos quem eram o que faziam seus dons,seus defeitos onde ela enfatizava o fracasso de cada um. 

Então ela a velha mãe  se apresentou naquela manha contando sua tragédia de sofredora que nunca teve descanso e que morreria se preocupando, com seu filho ovelha negra.

Ela quase cai da bicicleta quando entende o que estava acontecendo e como não tinha nenhum pudor em se autocríticar   ja ia buscando dentro das inúmeras imagens de si mesma  que possuía qual era a personagem que ela criou para ilustrar sua existência. 

Com um certo desequilíbrio ela terminou seu dia sem ter muitas respostas e num silencio estranho foi para cama naquela noite onde foi atormentada por sonhos sem explicações e por um sentimento de quem havia descoberto como era sem sentido nossas lutas emocionais, mesmo por que elas jamais acabariam.

Na manha seguinte ela acorda com seu filho chorando e assustado, o menino a abraça, “ mãe você não vai morrer, vai” com o rosto molhado e vermelho o pequeno se agarra a ela como alguém que esta tentando salvar a própria vida, ela sem responder nada o abraça e chora.

Como responder aquela pergunta e nutrir alguma segurança quando ela mesma ha anos estava buscando seus pedaços  e se auto-construindo?

Como cumprir a todas essas demandas da existência feminina e materna?

Assim começou aquele dia com a grande responsabilidade de não morrer de continuar sendo a segurança que seu filho necessitava e estar ali de verdade indo e voltando de seu mundo interior.

Ela precisava de mudança, ver novas coisas sair daquela prisão que  havia criado pra si mesma e que não funcionava por que estava sempre tentando fugir sem êxito , sabia que não podia e não queria deixar tudo para trás. Se pudesse levar consigo as coisas e pessoas que amava naquela fuga? 

Para onde iria?

Não havia uma outra solução que parar e enfrentar sua condição,  se entregar e tentar achar naquela entrega a resposta, mas ela via o resultado da entrega que eram as pessoas de seu dia a dia e sentia repulsa pelo mundo que aqueles que se entregam criavam ao seu redor.

Tudo aquilo parecia uma lista infinita de personagens num peca de teatro sem fim, cada um cuidando de escrever suas próprias falas para que o dialogo não parasse, o filho, os velhos, os pais da escola e outras pessoas que povoavam sua existência.

Sem falar dela mesma que era um monologo constante com aquela voz dentro da cabeça que dialogava com ela o tempo todo sem a deixar em paz para existir tranquila em sua mediocridade.

Era como se as coisas ficassem ali  logo debaixo da pele, não saiam e nem entravam esperando pelo grande momento da transformação, nem ela mesma sabia quando havia se tornado aquele ser estranho que vivia tentado encontrar equilíbrio em tudo, se fosse alguns anos atras ja haveria explodido e ela estaria livre para sair do meio dos pedaços, ruínas que restaram de suas velhas atitudes.

A terceira casa da semana seguinte 

Naquele dia ela trazia uma agonia na garganta alguma coisa que não a deixava respirar bem, como se fosse morrer de verdade, morrer fisicamente, deixar aquele corpo ir para o outro plano, mas lembrou do dia anterior quando seu filho lhe perguntando, pedindo para que ela não morresse e logo buscou relaxar-se . 

Era mais uma manha de limpeza e ja não importava para onde estava indo, era mais uma semana como a semana que havia passado e tinha tanto cansaço mental e fisico que parecia estar bêbada  sem controle sobre seus músculos.

Parou a bicicleta na frente da casa do cliente como fazia todos os dias ,apagou as luzes do biciclo,fechou a trava , botou a chave na bolsa misturada com as muitas coisas que havia la dentro o que sempre provocava pânico pois ela nunca conseguia encontrar nada ali em meio tantos papeis e coisas sem sentido, então achava que tinha perdido as chaves ou o cartão do banco, era como se gostasse daquele  desespero, assim que nunca limpava a bolsa e seguia desesperada cada vez que a abria.

Olhou a campainha numero 41 e mesmo antes de toca-la a porta ja estava aberta. “Bom dia menininha como a semana passou rápido, que bom que você esta aqui”.

Ela com desconsolo e desanimo olhou para o rosto velho, branco e enrugado da senhora e lhe disse de uma forma natural “Preciso dormir “, a senhora desconsertada pois nunca havia visto tal atitude nela lhe pediu para sentar-se pois ia lhe passar um cafe.

Ela sentada no sofá verde da sala olhava para o marido da anciã  que sentado em sua cadeira giratória exibia seu cotoco de perna como sendo algo natural, e que não devia reservar para si mesmo.

Ele a olhava com um olhar estranho como se estivesse lhe mostrando suas partes intimas, ela com um certo descaso não desviou o olhar e lhe pediu para ver o resto do cotoco, sem nenhuma cerimonia ele ergueu o jeans mostrando um bom pedaço de perna mutilado parecendo em seu design uma coxa de frango.

Ela olhava fixa o resto de perna que o velho senhor exibia quando a anciã entrou na sala trazendo uma caneca grande de cafe preto, amargo e forte.

A velha irritada observa a cena” quer fazer o favor de colocar sua pata “ ele obediente e submisso pega a perna mecânica e a acopla ao pedaço de perna que lhe restou depois do acidente que havia sofrido ainda quando viviam na Australia.      

Com a caneca de cafe amargo e sem nenhuma palavra ela se levanta e deixa a casa em silencio não sabia o que ia fazer quando saísse por aquela porta mas sabia que não podia ficar ali mais nem um minuto.

Os dois velhos sem entender a atitude dela se olhavam confusos a velha senhora ainda se levantou e a chamou tentando impedir sua ação desesperada “menininha , menininha, “

Ela se vira e olha dentro dos olhos da anciã com calma, respira com calma, bebe seu cafe com calma e quando parecia que tudo seria como na semana passada, depois de um longo suspiro uma voz forte e com calma sobe por sua garganta acima e ela ainda olhando nos olhos da velha senhora lhe diz o que gostaria de haver dito desde a primeira vez que ela lhe chamou de menininha.  

“Não me chame de menininha, eu tenho um nome, que você nunca tentou falar, não me chame de menininha.”

“Sou uma mulher de 45 anos adulta, vivida, sou mãe, sei de onde venho, sei quem sou, sei quem você e.”

“Não me chame de menininha, eu tenho nome e sobrenome”.   

Quando ela terminou suas frases com muita calma e clareza depositou a caneca vazia de cafe no armário da entrada da casa,  vestiu seu casaco, olhou os dois velhos com uma certa doçura, lhes disse adeus e saiu pela porta com calma.

Achou a chave da bicicleta na bolsa cheia e bagunçada  depois de alguns minutos de procura e desespero, abriu a trava, ascendeu as luzes por que era inverno e ainda escuro mesmo sendo nove horas da manha, sentou-se com calma em seu biciclo e enquanto pedalava chorava, com vontade sem se importar com o que os outros iam dizer ou pensar.

Sua vida não podia seguir sendo aquela vida, daquela maneira, se provocando violências era como uma dessas doenças onde as pessoas se cortam para sentirem que estão ali respirando, o excesso de realidade distorcia e destruía qualquer expectativa a tornando cínica  e sem esperança.  

As lagrimas gordas e quentes lavavam seu rosto e a faziam enxergar menos, seus olhos inchados não a deixavam ver, era como se sua bicicleta soubesse o caminho para onde ela iria, seu destino , ela havia acabado de toma-lo nas mãos, como uma bomba, destruindo, fazendo tudo em pequenos pedaços que jamais poderiam ser juntados mais uma vez.

Como seguiria dali em diante? 

Não era so deixar um trabalho que ela não gostava, não era so ir ganhar dinheiro de uma outra maneira, era mais que aquilo,era soltar os mil leões que haviam dentro dela .Sua decisão era assumir sua falta de capacidade de se adequar, de ser adequada aos papeis, ser adequada para fazer parte daquele grande teatro dantesco.

A bicicleta foi diminuindo a velocidade e como se possuísse alma parou na calcada onde ela ainda soluçando sentiu a neve caindo em seu rosto lhe trazendo algum frescor,nenhum pensamento cruzava sua mente e as pessoas que passavam a olhavam com desconserto de ver alguém chorando sem medo, expressando sua dor em publico  se atrevendo a mostrar que estava viva e que existia e naquele estado de descomposição espiritual ninguém se atrevia a ignora-la.   

           

   

                 

   

    

 

          





          

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