Climatério
Ontem disse mais sims que o normal, beijei mais minha criança, descansei mais, me preocupei menos entendi que tudo isso e passageiro, mas não entendi com a cabeça entendi com o coração.
Quando fui dormir, fui bem cedo e na cama bem confortável me esqueci do dia e me entreguei a um livro empoeirado que esperava por mim a meses.
Pensar que a morte e uma companhia constante traz um certo alivio e como diminuir a agenda ligar o “ Foda-se”, mandar muita gente e muita coisa a merda, fazer espaço no meio do caos de pensamentos que vem numa constância cansativa como as propagandas nos intervalos da sensação da tarde.
O que eu não sabia e que o sangue e so o anuncio de uma nova fase dessa minha historia que um dia vai se acabar, como tudo que começa e termina.
Hoje enquanto ia para algum lugar pensava se quando deixamos essa forma de nossos corpos quando assim dito morremos, se a vida sai de dentro de nos e se expande livre tomando outra forma mais generosa, mais volátil, mais leve, nesse momento senti como se meu corpo so fosse recipiente para esse monte de coisas que levo na alma.
Em junho desse ano completo 46 anos, hoje depois de receber a confirmação do medico fui declarada oficialmente segundo nossos tempos no começo do meu processo de decomposição.
Não pense que acho isso um termo negativo, ou o fim de alguma coisa, bem pelo contrario.
Deixar de ser jovem fisicamente tem sido para mim um grande momento de libertação, durante anos e ate hoje de vez enquanto me senti/a obrigada a estar apta de me adequar ao mundo das formas femininas desejadas pelos homens ao meu redor.
Sempre me sentia insegura e inferior por não fazer parte de um grupo de mulheres que agradava visualmente o universo masculino, tanto e que os poucos homens que dividiram períodos mais longos da minha vida nunca foram atraídos pela minha aparência.
Essa experiência fez parte da minha historia desde menina quando tinha amigas loiras de olhos azuis e cabelos lindos e eu era apenas um “ Tomboy”.
Os anos passaram e eu não melhorei muito, sempre achei a maneira com que as mulheres se comportavam em relação ao mundo muito estranha e tão pouco sabia como devia me comportar sendo eu uma mulher inadequada.
Esses dias que sinto meu corpo tomado pelos hormônios desse novo período, onde minhas costas doem, o cansaço e imenso e as emoções são tantas e tão diferentes, parece que sai de uma prisão de um lugar que estava trancada ha anos, me sinto forte e viva.
E como se as obrigações de uma ideia que levava em mim de como era ser mulher não existissem mais, o que alguns chamariam de fracasso eu chamo de liberdade, por que entendi mais uma vez com o coração que nunca fui o que carregava por fora.
Não sei ate quando vou entender com o coração, mas e tão bom poder pensar com seus sentimentos,
chegar a conclusões com todas as borboletas voando ao seu redor.
As dores vão desaparecendo aos poucos o sangue vai diminuindo, hoje me olhei por um tempo muito longo no espelho sem vergonha ou critica por isso ou aquilo, vi todas as minhas partes e agradeci a essa maquina maravilhosa que carrega tudo que eu tenho na alma.
Mais uma vez nesse momento eu entendi com o coração

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