Coragem
Era uma noite depois que havia terminado a escola, de onde vim so havia uma escola pequena e a partir da quinta serie so era possível estudar das cinco da tarde as nove da noite.Como tenho um irmão três anos mais velho que eu "Tato" íamos juntos a escola e logo depois caminhávamos por uma estrada escura ate chegarmos em casa, onde meu pai nos esperava acordado.
E assim foi por dois anos, mesmo porque logo nos mudamos para cidade, onde estudava no período da manha ate terminar o ginásio.
Antes de nos mudarmos numa dessas noites de escola meu irmão saiu mais cedo e não me avisou.
Quando minha aula acabou não o encontrava, ventava forte e uma grande tempestade se aproximava rápido, uma dessas tempestades de verão que costumam causar muito estrago.
Com meus doze anos e um medo gigantesco caminhei apressada pela pequena cidade de uma rua procurando meu irmão que fazia questão de não aparecer, os bares iam fechando rapidamente por causa do temporal e sem esperar me vi sozinha naquela rua vazia sem saber o que fazer.
Essa foi a primeira vez que me lembro de uma forma consciente de ter que ter coragem, parada no meio da rua dei uma ultima olhada ao meu redor e não havia mais ninguém, eu era a única pessoa que restava naquela noite.
O céu se iluminava riscado de relâmpagos, as luzes fracas e amarelas dos postes iam e viam ameaçando apagar a qualquer momento. Senti meu coração de menina batendo na garganta e tomei uma decisão. Enfrentaria a noite, a tempestade, a escuridão da estrada sozinha ate chegar em casa, precisava sair dali.
Ja sentindo as primeira gotas da chuva comecei a correr, a arreia do caminho entrava nos meus sapatos me machucando.
Não via nada a minha frente, era tanta agua vinda do céu e tanto escuro que so podia ver quando os raios vinham e me causavam tanto medo que quase ja não sentia meu corpo, a única coisa que pensava e que não podia parar de correr.
Ja quase em casa correndo pela plantação de cafe escutava o vento nas plantas, nas arvores fazendo um barulho sobrenatural, o medo era tanto que ja não tinha medo.
Com as roupas empadas em agua e lagrimas alcancei a porta de casa que estava aberta com meu pai a nossa espera, ele assustado de me ver sozinha com um tom áspero me pergunta onde estava meu irmão.
Demorei a responder mesmo por que não podia respirar depois de tanto correr, quando pensava em dizer alguma coisa vi meu irmão entrando porta a dentro tão molhado quanto eu.
Meu pai em sua autoridade me repreendeu e me fez prometer que jamais iria novamente sozinha para casa no escuro.
Meu velho pai!
Que saudades, depois dessa noite aprendi tanto, atravessei tantas tempestades para chegar ate aqui, e as noites escuras que tive que estar sozinha foram tantas que ate perdi as contas.
Algumas vezes assim como hoje ainda me lembro desse dia que tive que ter coragem, ainda me lembro do coração no peito batendo tão forte como que querendo sair do lugar.
Hoje aprecio as tempestades, gosto do silencio da noite, como agora aqui nessa casa sozinha com minhas lembranças vago pelo escuro do jardim buscando esse medo que temos antes de encontrarmos a tão procurada coragem.

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