A realidade chinesa das coisas
Quando estava nos meus últimos anos de bacharelado na academia de arte achava que tudo que via e vivia era extremamente intenso e sempre pensava como poderia viver sem aquela intensidade quando meus estudos terminassem.
Foram viagens, sem números, Espanha, Franca, Alemanha, Bosnia , Italia , tudo em nome daquele amor tão grande que me ligava a fotografia, ver a vida como uma pessoa que faz imagens de coisas que ve e sente era extremamente intenso naquele momento e toda minha alma tinha a velocidade daquelas imagens que conseguia trazer comigo de cada passo que dava em direção a alguma conclusão que me fazia ver mais clara essa vida . Chorei em Bosnia com mulheres que me contavam as atrocidades da guerra e como perderão seus filhos naquela batalha maldita, nessa época nem sabia o que era ser mãe e nem queria e nem imaginava nunca ter um filho.
Dias longos e quentes foram aqueles a beira daquele mar transparente que quase dava pra ver as almas dos muitos afogados pelo desespero da fuga. Lampedusa foi um misto de inferno e paraíso, alguma coisa difícil de estabelecer, um lugar lindo e quente como um caldeirão , cheio de historias vindas da Africa que destroem qualquer beleza, com uma tristeza enigmática e invisível para os insensíveis. A fotografia era nessa época como um tipo binóculo , aqueles antigos com cores chinesas, que te fazem pensar e ver a imagem ali tão perto ao toque da mão, mas ao mesmo tempo tão distante numa realidade que nunca conseguiremos alcançar. Nessa época sempre me achava alguém que observava historias, vidas, rostos mas também tinha um sentimento que não fazia minha própria historia , fotografar era como fugir a responsabilidade de estar envolvida de verdade com meu desenvolvimento como pessoa, alguém que deveria ser mais que um contador de historias. Ver observar aquelas vidas e documenta-las me levava cada vez mais longe da minha própria vida , estava me distraindo para não encarar a mim mesma, eu acho.
Quando os estudos terminaram e meu filho chegou, a fotografia perdeu sua forca, nunca foi a mesma coisa que antes.
Tinha saído detrás daquela maquina protetora e estava vivendo uma experiência real, que literalmente tinha transformado minha carne e minha alma.Antes quando fotografava alguma historia achava que estava muito próxima das pessoas, personagens e donas daquele roteiro real o qual me davam a permissão de registra-lo, na verdade nunca estive próxima dessas pessoas nunca as senti de uma maneira real, elas sempre foram uma fuga da minha própria realidade que me enchia de medo, viver de verdade e muito menos glamuroso que buscar historias pelo mundo. Viver de verdade e muito mais difícil que escutar coisas/fatos vividos.
Algum dia acredito ter a pretensão de ter achado que estava ajudando alguém contando suas historias, mas na verdade so estava desesperada correndo da minha própria. Hoje sentada aqui sem grandes historias alheias, e sem nenhuma pretensão de salvar ou ajudar alguém, sem nenhum glamour, cheirando a mãe que correu o dia inteiro, olho para traz e penso se um dia voltarei a sentir esse amor que um dia senti pelo que fazia e ainda faço. Meus dias extenuantes de mãe solteira bebem toda minha criatividade, meu computador esta travando de tantas fotos do meu filho meus projetos pendurados no murro me olham com um certo amargor. Não sei se me sinto triste ou livre dessa sina de contar coisas. Alguma coisa dentro de mim continua me dizendo que vai voltar , aquela paixão e aquele aconchego que se sente quando se esta atras de uma lente, olhando mundos, vidas, historias, que te fazem chorar e viver mais uma vez.
“ Quando voce voltar meu amor que se tornou segundo, não venha como fuga e nem como esconderijo, venha como um dia foi, um caminho de descobertas, um caminho que não me tire da minha realidade, realidade essa que aprendi a respeitar e viver e mais que tudo amar e apreciar.”
Minha casa dorme, meu corpo doe dos exercícios seguidos de dois dias de academia de esportes, o sol vem ja faz tres dias , meu corpo e alma começam a acordar mais uma vez para a nova primavera. Meus cabelos voltaram a cor normal, ja consigo dormir mais tarde e acordar mais cedo, a gripe foi embora. Quando voce vai chegar?
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| 2001 viajando de barco pela Europa como uma sans papiers |
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| mae 2013 - meu primeiro auto-retrato com meu filho |



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