O Rego da Vida que aparece no bonde quando e domingo e chove.
O homen sentado no trein de cabeça baixa tremia com movimentos nervosos e pescoço inclinado por uma doença estranha, seu companheiro erguido pela soberba sentado a sua frente com a coluna reta olha o estrangeiro com a pele queimada pelo o sol e traços difíceis de reconhecer a sua origem. Um olhar arrogante sem nenhuma intenção de admitir sua existência, deixando aquele ser alheio sem nenhum direito de pertencer aquele espaço onde os dois estavam, ignorar ainda continua sendo uma das piores violências.
O estrangeiro que vinha de não sei onde me deixa um bilhete e um pacote de lenços de papel, o bilhete dizia: " Tenho dois filhos e estou sem trabalho, por favor me ajude ". O olhar daquele homen que vinha de não sei onde trazia mais que necessidade, ali havia uma luz que refletia a forca e a luta diaria de sua sobrevivência. Seus olhos me fizeram reconhecer a mim mesma, me lembrei dos meus primeiros meses quando cheguei na Europa e dos dias longos entregando correspondência como ilegal pelo sertão de Portugal.
A coragem do homen que quebrava as leis daquele pais de primeiro mundo para ganhar sua vida me fez admira-lo. Mesmo estando naquela posição de digamos pedinte tinha uma dignidade que logo o promovia a lutador, mesmo por que muitas pessoas que possuem posições econômicas superiores a deste estrangeiro de não sei onde podem ser muitas vezes mais pedinte que ele.
O trein chegou rápido na estação o estrangeiro desapareceu antes que pudesse localiza-lo em meio aos outros que apressados tomavam seus destinos desconhecidos.
Me faltavam nove minutos para tomar o bonde rumo a praia, para mais um dia de trabalho. A estação estava especialmente cheia de pessoas e cenas estranhas saídas de um certo conto nunca lido. Um homen velho com aparência de Abraão, barba branca, longa, roupas negras, olhos que enxergavam no passado, estava ali sentado naquele banco frio e cinza e alimentava com pequenas migalhas saídas de dentro de um saco de papel de um mercado conhecido seu filho com síndrome de down.
O rapaz que deveria ter uns 20 anos comia como um pássaro calmo e domesticado da mão de seu pai Abraão, os traços genéticos combinavam aquelas duas caras perdidas na estação, a cena era de um grau de amor intenso. Logo ali do lado passou a mulher africana com suas cores fortes de um tropical que destoava de tudo por ali inclusive da minha cor fingida provocada pela falta de luz. Mais ela não ,ela nada desbotada encheu aquele cenário de domingo de luz e sol acompanhada com suas tres filhas princesas que nos mesmos tons a seguia e cruzavam o saguão da estação fazendo nos lembrar que o verão esta a caminho mesmo sendo hoje o primeiro dia da primavera.
O bonde chegou e entramos como vacas, desesperados por um lugar a janela como se fossemos observar a vida la fora. O homen alto sentado no banco da frente que mais parecia uma montanha com uma pedra em cima, num ato quase desesperado se curva e quase entre as pernas abre um saco e devora alguma coisa com cheiro azedo e desagradável .
Duas paradas depois da ultima dentada sorrateira ele aperta o botão preto que diz stop e com um cigarro no meio da boca ja pronto pra queimar e uma calca que dizia na etiqueta " Time los since 1598", a calca com a etiqueta se penduravam no começo do seu rego deixando ver essa parte desagradável da bunda que involuntariamente aparece quando menos esperamos. O homen montanha com pedra em cima deixou o bonde meio sem fôlego e sem saber pra onde ir. Do outro lado da rua corria um tatuado com glúteos perfeitos que arrancou suspiros e buzinadas da condutora do bonde e o homen montanha que desapareceu do cenário sem deixar rastro deixou um grande vazio no bonde.
Atras de mim crianças inquietas não suportam esperar pela parada e sua mãe negra com lingua francesa os acalma com amor.
O bonde nao para e meu destino se aproxima a chuvinha fina e cinza cae sem vergonha, a pele do meu pescoço continua estranha deve ser a idade, no reflexo da janela do bonde vejo uma lina funda na minha testa os meus cabelos brancos ja não são mais novidade . As curvas antes da minha parada são brutas que quase nos lança pelas janelas pequenas do bonde. Mariana me diz que a chuva não vai parar que vai molhar o dia todo. Hoje e domingo pe de cachimbo. O que sera que o homen do rego pelado faz no seu domingo ? Onde ele foi parar com seu rego pelado? Em dias de chuva quando e domingo e melhor não pensar, ainda mais com essa chuvinha cinza que vai molhar o dia inteiro , foi isso que a Mariana me disse , a pele do meu pescoço continua estranha. Mais onde foi parar o homen de rego pelado?


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