Chegada ao Paraíso, 




O trem sacolejava mas que a ultima vez, cheia de bolsas e com um bolo vegano de chocolate e a duvida com meus dotes culinários, subi naquele trem pela segunda vez rumo ao meu novo trabalho. O dia estava bonito, parece que sempre que vou para aquele lugar o sol aparece e me diz, vai. Os campo ainda a cerca da  minha cidade deixavam ver um verde estranho para essa época do ano, as aguas congeladas dos muitos metros de pequenos canais enfeitavam com um branco pálido aquela paisagem de sábado a tarde.
Sem pressa eu e os outros passageiros sentados naquele trem quase vazio seguimos cada um para seus destinos.
Mais uma pagina do livro mais um texto no tablet, um senhor sentado ao meu lado com quase dois metros e muitas dificuldades para conseguir abrigar suas pernas longas como bambus atras dos bancos azuis gastos do trem, fazia um barulho enorme para passar as paginas de uma revista que se pega num ponto gratuito da estação.
Ali estava, so me faltava mais um ônibus de 15 minutos e logo andaria mais 15 minutos e chegaria ao meu destino.
Ultima parada do 166, meu ponto se chama “A estradinha” e ali começo minha caminhada de 15 minutos que neste sábado segundo, durou quase meia hora.
Um sol com uma luz de inverno intensa iluminava tudo por ali ,as arvores ao longo do caminho   vestidas de uma cor triste meio marrom, com umas manchas verdes aqui e mas la na frente, balançavam como se me dissessem boa tarde  ao ritmo de um vento bondoso que vinha logo dali , do rio que abre caminho rumo aos portos de Rotterdam e ao mar.
Andando em cima da parede de terra que proteje a estrada e as plantações  la embaixo pude ver os grandes barcos cruzando rápido, rumo ao porto, logo adiante moinhos de vento, enormes como naves espaciais,  girando sem piedade nenhuma, fazendo um ruído que meus ouvidos não reconheciam.
Me senti um Dom Quixote Brasileiro perdido por ali, numa luta quase esquecida, um pouco amenizada pelas pequenas alegrias diárias.
Moinhos brancos gigantes que giravam com tanta forca, que poderiam cortar corpos, sonhos e tudo mais com uma facilidade destruidora.
Os moinhos me deixaram triste e sem cavalo e sem Sancho, cheguei eu, um Dom Quixote esquecido naquele lugar, mais uma vez.
O guarda da entrada com uma cara rosa e uns cabelos grisalhos me atendeu enquanto sua colega procurava nomes e rostos naquela tela de computador fria. Uma senhora de língua árabe bem maquiada queria saber se hoje chegaria a correspondência, todos esperavam por noticias daqueles que foram deixados para trás. Um aqui e um grupo ali com seus telefones em punho como que buscando por alguma coisa, alguns de cócoras outros de pe. Um homen ainda jovem muito educado da lugar a senhora bem maquiada que espera pela correspondência.
Minhas chaves são entregues e me dirijo para uma das casas containers onde recebo as mulheres que estão interessadas em participar das actividades.
Janelas abertas, bolo na mesa, cafe, chá,  porta aberta e não demora muito para que o lugar começasse a ser povoado por historias, receitas, sonhos.
Uma das mães me apresenta a filha mais nova, seus olhos brilham ao dizer que a pequena ja fala holandês. A menina me conta da sua vida  e como ela gosta de seus amigos na escola Holandesa, os olhos da mãe fixos naquela figura infantil se enchem de ternura, suas historias mais secretas não me são reveladas, so sei que vieram de áreas criticas da guerra na Síria, não preciso saber mais nada que isso, querer saber mais seria como querer satisfazer uma curiosidade mórbida. A tarde ja quase acabou e a luz la fora aos poucos vai enfraquecendo hora de voltar, espero vê-las no próximo sábado se ainda estiverem aqui mesmo por que suas vidas não tem planos muito longos que o dia e o momento em que vivemos e sem duvida o amanha, não nos pertence. Esse lugar estranho e incerto emana um energia inexplicável, ali me sinto bem como se pertencesse a esse grupo de pessoas que deixaram o inferno para trás em busca do paraíso, um paraíso incerto também, nesse lugar me sinto em casa e posso olhar as pessoas nos olhos por mais que veja que suas tristezas não são as minhas. Hoje foi mais um sábado e mais um dia nesse estranho paraíso povoado de esperança e gratidão pela vida.
            

           

Comentários

Postagens mais visitadas