Foi sábado, nunca saio aos sábados para mim os sábados são dias proibidos, as pessoas pelas ruas andam como se estivessem no escuro com seu olhar blase, e sinceramente sair a rua para não ser vista, para não ter contacto visual ou qualquer experiencia mais humana, a melhor opcão e ficar fora desse território de cegos sem bengalas.
Não sei muito bem o motivo mas naquele sábado me arrisquei e por entre os tantos esbarrões sem o normal “me desculpe” cheguei a uma zona mais calma onde saia uma fumaça pesada de um desses carros que vendem comida por ai(Foodtruck) , com letras vermelhas quase comunistas ou quem sabe socialistas, se dizia que ali se vendia lumpias, uma varandinha garantia que os clientes estivessem quase secos protegidos da chuva fina e gelada que não dava trégua.
O branco do carro contrastava com as pessoas que faziam um grupo ao seu redor todas vestidas em tons cinzas, com suas peles pálidas, seus cabelos desarranjados pelo vento , pareciam ter escolhido suas roupas para combinar com o dia.
A festividade de um lugar que serve alguma coisa quente e frita num dia frio não fazia parte daquela cena, e as pessoas num gesto quase que abominável comiam suas lumpias , redondas e compridas com tamanhos relativos a gula de cada um, com sua casca crocante que estalava entre aqueles dentes calados, naquele sábado cinza e frio, esse estalo fazia uma musica estranha com o som de cada lumpia que se partia pela a forca do maxilar de cada consumidor.
Durante alguns minutos fiquei fascinada por aquela cena , ouvindo aquele som vindo daquelas bocas, daquelas lumpias, de ver a senhora chinesa feliz em sua existência discreta como se comemorando o sucesso daquele sábado de vendas.
Quando passava pelo grupo completamente sem ser notada , uma senhora de costas se vira e me olha com seu único olho.
O mundo parou naquele momento quando meus olhos se cruzaram com o dela , não sei como explicar.
Mas era sábado, estava frio e cinza e sai a rua para ver se me livrava daquele sentimento de inverno que incomoda, numa tentativa desesperada de achar alguma humanidade naquele dia quase impossível de existir.
Aquele olho solitário naquele rosto pálido que esmagava aquela lumpia com a forca daquele maxilar calado, me levou daquele sábado cinza, me mostrou alguma coisa que não posso explicar.
Era um sábado cinza, estava frio eu sentia o vento entrando pelo tecido das minhas roupas, não estava protegida o suficiente, não conseguia ir e abandonar aquele olho que me viu.
Aos poucos a lumpia desaparecia dentro daquele rosto indo fazer parte do corpo daquela mulher com um olho so, que comia, que me viu naquele sábado cinza, quando fazia frio, quando era quase impossível existir.
Espero que o frio tenha ido embora mesmo por que ja e maio, quando esquenta a senhora das lumpias vai para outras paragens, com seu carro de comida .
Sera que quando esquenta a mulher de um olho so vai também para outras paragens?
Aqui quando esquenta e como se as pessoas fossem obrigadas a despertar , e com uma certa falta de vontade começam a se olhar, então e verão ,por algumas semanas e logo depois voltam a dormir por mais uma temporada.
Algumas pessoas não dormem e como eu procuram alguém que possa vê-las ate mesmo num sábado cinza e frio.

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