Quando os dias eram claros e o céu azul que doía, meus pés que tinham a idade de 10 anos tomavam o rumo da liberdade procurando um lugar calmo para deitar na grama e olhar direto para cima para ver se conseguia enxergar mais que aquele azul com algumas nuvens branquinhas que pareciam ser lavadas pela minha avo.
Nao sabia dar um nome para aquele sentimento que me enchia o peito de menina sem seios, que me fazia rir e sentir a cabeça leve.
Deitar na grama e olhar pro céu em dia de sol com nuvens branquinhas, e inexplicável e so fazendo para saber o que se sente.
Nesses dias me sentia livre da minha condição feminina infantil, de sitio, destinada a seguir o destino que alguns escolheram para ela, nesses dias olhando o céu infinito fazia minha estratégia de combate em meus sonhos, pensava em como sairia daquela prisão e me preparando para a grande fuga os anos passaram e descobri que minha condição de mulher me obrigaria a derrubar murros de prisões diárias e sempre estar com as malas prontas e os pés livres para ganhar a estrada da liberdade que aparece em dias claros com um céu azul que dói, com nuvens branquinha que parecem lavadas pela minha avo.
Isso foi dois dias atras, antes de ir fazer compras bati na porta do meu vizinho para lhe dizer que cortaria algumas ramas de bambu que cresciam no seu lado do jardim, ele me olhou nos olhos com sua filinha de cinco anos ao lado e me disse “ também posso lhe ajudar com seu jardim de tras, considero que voce sendo mulher não tem muita experiência em cuidar dessas coisas e também não e forte o bastante para fazer o que se deve, ainda mais sendo uma mãe solteira acredito que e uma situação difícil para que voce possa tomar conta de tarefas tão alheias a sua capacidade ”.
Em cinco minutos ele havida me dito o que fazer , quem eu era, como era fraca e como eu necessitava da sua masculinidade.
Não sabia o que lhe responder vendo que estava muda e surpresa pela visão daquele desconhecido que sabia tudo de mim segundo ele e seus preconceitos.
Hoje mais de 30 anos depois daqueles dias que ainda era uma jovem reclusa num pedaço de terra verde no interior sul do Brasil me vejo lutando com essas ideias alheias diárias que tanto desejam nos fazer sentir fracas e incapazes de qualquer coisas.
Mas, mais bruto que tudo isso e ser forte o suficiente para não vestir essa fantasia tão conveniente da fraqueza feminina.
Por que querem sempre nos convencer que somos frágeis criaturas?
Que necessitamos da defesa do outro sexo, quando temos o mesmo poder de empunhar nossa própria defesa?
Simone Bovaire diz no seu livro “ O Segundo Sexo” que a mulher nunca aconteceu , nunca tomamos nada para nos mesmas, so aceitamos o que nos foi dado.
Sempre esperamos dos homens o reconhecimento de que somos iguais a eles e no mínimo não inferiores, isso nunca chega.
Para algumas de nos são feitas meias concessões as quais justificam que o resto da população feminina entenda que existe um respeito e uma evolução em andamento, mas com passos de lesmas e que muitas vezes vai passo atras .
Pois eu acredito que desde os Assírios a condição minha como mulher e sua so foi sendo traduzida sem muitas mudanças para cada nova era.
Eles vão nos permitindo fazer coisas, mas nunca fizemos uma revolução para tomarmos o que realmente e nosso, nossos corpos, nossas vidas, nossos destinos...
Mas hoje penso na minha revolução pessoal e desde que me rebelei e tomei meu próprio e particular reino em minhas mãos tenho que protege-lo de invasões diárias como a do meu vizinho que acha que sabe como e que eu devo ser e sabe quais são as minhas habilidades mesmo sem nunca ter tido ao menos uma meia hora de dialogo.
Sim, sou mulher, sou mãe solo, estou so por minha opção mesmo por que não necessito ser protegida ou amparada por alguém que queira em troca poder me dominar.
Minha pouca liberdade tomada no grito não esta a venda e os muros no meu reino eu os conserto com a minha delicadeza feminina, com as ferramentas que possuo no tempo que eu quiser, minha vida e meus anseios são meus.
Quando era menina naquele pedaço de terra verde me preparava para uma luta eterna e nem sabia disso.
Hoje olho muito o céu em dias de agonia e cansaço como que procurando um alento nessa imensidão desse céu estrangeiro, procurando enxergar mais que as coisas que vejo ao meu redor, procurando acreditar que um dia seremos mais iguais e sem necessidades de dominar esse ser que conhecemos como mulher.


Comentários
Postar um comentário