Liberdade 

Ja era quase hora,  e um certa nuvem invadia meu cérebro me causando um medo mascarado de vontade de ir ao banheiro a  cada cinco minutos.
ja vestida toda colorida para disfarçar o cinza interior da insegurança me sentei na bicicleta como se estivesse indo a praia mas na verdade era meu primeiro dia de trabalho.
Ainda no caminho pedalando e suando como um cavalo tentava abstrair a sensação estranha que me fazia ter vontade de mudar de caminho.
“ Ok ja estou quase. Que numero era? Eu sei que não esqueci, sei o endereço direitinho mesmo por que nunca esqueço endereços e nem lugares. Será que vocês podem parar de falar comigo agora?”
Escutar todo esse dialogo em mim não era algo apropriado para aquela manha, antes mesmo de colocar a bicicleta no devido lugar vi o senhor com cara de rei que me sorria me dizendo que estava muito bem. Um outro cara de chinelos com um certo charme olhava meus pés com meias de la e sandália branca plataforma. Acho que ele me achou estranha, mas bem. 
Com a mascara na cara e me sentindo protegida apertei o  botão do porteiro eletrônico, alguém  do lado de dentro perguntou com uma voz autoritária: “Quem esta ai?”, depois de explicar tudo, a porta com um som estranho abre.
Algumas pessoas ja estavam por ali tomando o cafe da manha e com algumas apresentações comecei meu dia, equipada de um telefone para emergencia  que logo enfiei na bolsa e o esqueci, comecei a organizar o espaço que parecia completamente deixado.
Um homen jovem com uns trinta anos passou pela sala e a cada três passos tinha um espasmo muscular que fazia com que ele soltasse sons estranhos e esticasse um das pernas como um boneco.
Outros sentados no sofá pareciam olhar para uma televisão invisível sem nenhum sinal de conexão com os arredores, mesmo diante dessas cenas me sentia em casa como se soubesse exatamente onde estava.
Não sei como explicar como algumas coisas possuem essa beleza tão crua, que vai alem do que conhecemos do fisico, do emocional, uma beleza assustadora por que releva a fragilidade da nossa existência e a brevidade dos nossos momentos. 
Tudo passa as coisas boas e as coisas ruins, não devemos nos apegar a nada e a ninguém.
Foi nesse mesmo dia que tive o grande encontro, ele se chama COD, pelo menos e assim que ele quer ser lembrado, ele me falou “ quando ela entro na sala vi seu grande nariz e assim que a vi entendi o talento daquela mulher que me intimidou. Eu sou um bom pintor, mas ela, aaa ela…”.COD me contava de seu grande amor em seu pequeno quarto sem luz abafado , com as cortinas fechadas, onde haviam lindas pinturas espalhadas e cobertas de roupas sujas, mas tudo era tão bonito como as historias de filmes que nos fazem acreditar que poderiam ser realidade.
Nesse caso era, COD ali no meio de suas memórias , de suas pinturas, de suas dores, de suas mulheres. Como nos filmes que nos fazem chorar, COD perdeu seu amor num trágico acidente, não sei quando foi mas parece ter sido ontem, mesmo por que quando ele contava seus olhos se enchiam de tristeza.
Dentro do corpo velho entregue a vida COD ainda vive aquele momento e ele me fez viver também e hoje nos encontramos e ele me contou dele, de seu amor e da morte, de quem e, e de quem foi um dia num passado distante, hoje COD me encontrou e sem pretensão me deu esse presente que e sua historia, que poderia ser a minha ou a tua ou de qualquer um de nos.
Tudo vai com o tempo como se fosse um trem de carga que tudo leva nos deixando sem corpo, como se nossos corpos a cada dia se transformassem em memórias ocupando nossas cabeças e a cabeça daqueles que nos amam ou nos amaram um dia. A vida, o tempo, o corpo, as lembranças tudo e revestido de fragilidade. 
Tudo passa, não devemos nos apegar a nada.
  

    

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