Menino Homen…
As vezes a idade pode nos dar uma certa arrogância , uma arrogância que nos põe num lugar sem muito acesso para outros.
Como vencer o pedestal da maturidade e continuar aberto a viver mesmo que em grupos pelos quais ja passamos nesse processo de nos tornarmos mais velhos?
Ele me olha. E eu ? Olho ao redor para ver onde aqueles olhos de um pouco mais de 20 anos estavam fixados , pra surpresa dos meus quarenta anos era eu o alvo daquele olhar quase infantil.
Sem graça e muito desconcertada e com uma certa raiva dentro de uma bolha incomoda me levantei e fui adiante. Na proteção da minha solidão , e intimidade me confrontei com facto de que era olhada, ainda invadida e muito surpresa comecei a gostar daquela sensação.
Sim, me olham.
O acto de olhar e reconhecer a existência do outro , mesmo que seja um olhar infantil com hormônios frescos de uma puberdade que passou ontem, te faz existir e por um momento te liberta e chama a forca feminina sensual a tona de um corpo ainda cheio de vigor e vida que exige o fim do sacrifício moral estabelecido por regras impiedosas e comerciais.
Ele não desistiu , se aproximou e num acto ousado me pergunta sem muito tato se eu tinha alguém na minha vida.
A velha bruxa de 40 anos lhe responde num ataque de muitos não me toques que poderia ser sua mãe e que gostaria de ser mais respeitada por alguém tão jovem. Na verdade a velha bruxa escondia dentro dela uma menininha cheia de medo, medo da proximidade daquele perigo.
Quando chegamos aos quarenta com um coração partido e uma carga de vida que mais seria de uma pessoa de 80, nossa bagagem se torna pesada e nossas almas intransigentes. O que deixar para trás para seguir mais leve e adiante?
Não sei.
Bom , o menino, ele continua me olhando, minha irritação e quase passado, ele continua por ai com sua boca quase infantil, olhos de quem ainda cheira a bolinha de gude, mãos delicadas de quem nunca teve que sobreviver. As vezes me pergunto na solidão e intimidade da minha cabeça. Será que o menino quase homen suportaria a realidade se suas palavras e desejos se tornassem o agora? Seu corpo quase infantil confrontando com meu e minhas cicatrizes? Os hormônios do menino homen podem amenizar essa realidade mais não ha muda, a vida que passou por mim acaba de florecer nele e por mais que me encante o vigor da sua existência jamais poderia violentar sua fantasia e curiosidade. Ele ficara por ai nessa paisagem transitória, será aquele que um dia me olhou e me fez existir, aquele que um dia me olhou e me fez descobrir que meu coração estava partido. O menino homen se tornara essa lembrança bonita, mais intocada.


Comentários
Postar um comentário