PLIM, PLIM
Era algum dia dos anos 80, na verdade 1980, numa casa na vila Mariana que na época nem muito chic era, estava uma televisão em branco e preto ligada e falando o dia todo com uma menina de cinco anos. Ali naquele quarto sem janela em cima de um armário quase bonito com toalhinha de crochê , aquela caixa falante ensinava o mundo para aqueles dois olhos que estavam começando a viver.
Acordar e dormir eram uma rotina sem nenhum clímax , fora daquele quarto.Mas quando ela escutava aquele clic, o mundo se abria em muitos mundos e a ausência de clímax se tornava um clímax constante. Ali dentro daquela caixa as pessoas viviam como tinha que ser, intensamente.Ali tudo acontecia a toda hora, aquela linguagem estranha falava ao coração como se elas, a menina e a caixa falante tivessem um conexão direta.
Ninguém a escutava o dia todo, por ali passavam o jornal de todas as horas, Monteiro Lobato com seu sitio do pica-pau Amarelo , filmes da sessão da tarde e muitas novelas com receitas de viver que ela ia decorando aos poucos. Ali ela aprendeu que o mundo era bem maior que aquele quarto.
Um dia ela aprendeu que havia um homen que tinha morrido mais antes disso ele cantava e dançava de um jeito estranho mais também muito bonito, ela não entendia a relação dos adultos mais achava que era adulta. Todos os dias antes de dormir ela esperava que aquele homen com seus óculos escuros e roupas brancas aparecesse cantando 1,2,3 naquela língua de terras distantes, ela sabia que era 1,2,3, por que ela ouviu alguém em casa dizendo.
Era tão bom dormir embalada por todas aquelas historias visuais e sonhar, que um dia a caixa se abriria e ela poderia entrar ali e viver como todos eles viviam, intensamente.
Um dia chegou um carro grande e a menina sentiu a emoção daquela mudança e depois de muitas horas que pareciam intermináveis ela acordou num outro lugar cheio de verde e cheio de pessoas que falavam com ela como se a conhecesse ha muitos anos.
Seus pais, sim seus pais que existiam fora da caixa ha levarão para um lugar que a caixa não podia funcionar , ali tudo era diferente as luzes eram de velas e a agua aquecia num fogo de lenha . A caixa sem vida decorava a sala daquela casa de madeira que parecia ate de mentira.
Anos, que parecem séculos depois, a menina cresceu e cresceu, a vida passou e ela viveu muitas aventuras como na caixa , mas não todas.
A caixa se transformou num MAC, a vida sem clímax se transformou numa aventura sem fim e claro a menina cresceu e parece ate mulher, mais dentro daquele corpo adulto com muitos anos ela ainda vive dentro do seu quarto com sua caixa da vida, que fala e fala e fala, e fala e fala e fala e fala e fala e fala e fala. Ou!! Antes que me esqueça, a caixa dentro daquela mulher que leva uma menina, as suas imagens são coloridas.
PS- sonhei com Bee Gees hoje será um sinal.


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